sábado, 18 de abril de 2020

Sarandalhas - Mady Benoliel Benzecry

A poetiza, compositora e artista plastica, Messody Benoliel Benzecry, que assinava simplesmente - Mady, nasceu em Manaus em 19 de fevereiro de 1933, filha de Jacob Paulo Levy Benoliel e Rachel Benoliel. Foi casada com o escultor e pintor Eugênio Carlos de Almeida Barbosa Batista, juntos realizaram diversas obras e exposições (Batista e Mady).
Foto: Mady. Sarandalhas. 1967


Mady, publicou dois livros de poesia: De todos os crepúsculos (1964) e Sarandalha (1967). Sarandalha tem a capa e oito ilustrações de Moacir Andrade. Mady faleceu com 70 anos, na cidade do Rio de Janeiro, em 11 de junho de 2003. Deixou dois filhos Jacob Elias Benzecry (Elly) e Norma Nellie (1953 -2000) - Norminha.

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Sarandalhas 1967


Mady B. Benzecry. Sarandalhas (poemas). 1 ed. Ponguetti: Rio de Janeiro.1967. 117 p.
Sarandalhas. Folha de rosto com dedicatória. Acervo - Amazoniana - Wenceslau Teixeira


Este livro foi dividido em quatro partes: A criação da Bahia, Baú de Infância, Cantilenas e Esparsas.

Baú de infância relembra sua infância em Manaus e dedica quatro poemas aos "doidos" folclóricos na década de 60 e 70 em Manaus: Bomba-lá,  Macaxeira,Velha Saúva, Nêga Charuto, Mudinho Cazuza, Alfredo Lezo, a poetiza popular  (Isabel Murtinho - a paçoca) e a Carmen Doida que também foi retratada por outros escritores: Thiago de Mello - Manaus - Amor e Memória. Rio de Janeiro: Philobiblion. 1984. 251 p. (Coleção Oficio de Viver, v.1). José Aldemir Oliveira. Cronicas da minha cidade. Letra Capital. 2017. 132 p.


Carmem-Doida  - Ilustração para o poema. Moacir Andrade. Sarandalhas. 1967


CARMEM-DOIDA




CARMEM-DOIDA! Gritava

a criançada da antiga

praça da prefeitura,

a Carmem-doida endoidava

mandava banana pra todos,

cuspia a dentadura

xingava a mãe e a família

da garotada e berrava

os piores palavrões…

Carmem-doida! E a tua mãe,

está no hospício também?

“No céu! Seus mizerentos

rebentos do Satanás,

na paz do Senhô, ela está!”

E ia ao “Juizado

de Menores” se queixar!

“Seu juiz, não é prussive,

tanta, tanta bandalheira,

eu sou muié de respeito

e não ardimito brincadeira!

A gente tem de acabá

com esses moleque de rua,

já é a quinta dentadura

que eles me faz quebrá,

entonces esta, foi cara,

ganhei ela de natar

e tinha um dente de ouro

bem na frente, seu dotô

eles tem de me pagá!”

E lá se iam dois guardas

a garotada autuar…

Um dia, foi no Natal

uma “vaquinha” correu

na praça da prefeitura

e Carmem-doida ganhou

um presente dos meninos

com cinco dentes de ouro

uma nova dentadura!

E desde então Carmem-doida,

muito mais doida, ficou…

(Sarandalhas, 1967, p. 37 - 39)




A Carmem-Doida,  era uma morena magra e alta, gostava de dançar na rua, sempre com um saco de estopa na mão  e de andar de ônibus. Os estudantes quando chamavam  - Carmem-doida, sempre tinha a pronta resposta:  -É a tua mãe, filho da puta, vagabundo!
Num acidente ficou paralitica, mas foi cuidada por uma pessoa até o final da sua vida. Foi tema de uma reportagem do Jornal a Critica em 1977


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Cidade Flutuante 




          A Drummond de Andrade


Barracos de umbaúba,

soalhos de acapú,

esteios de acaricoara,

telhados de ubuçú.



Cortinas de céus bordados,

tapetes de muriré,

nimbados de espuma afloram,

serão frotas de Noé?



No manto líquido negro,

pardo, mesclado, barrento,

vomitam estampidos horrendos

dragões com asas de vento



 e da garganta da noite

escapam berros medonhos,

elétricas espadanas

serão Dante, os demônios?



 Barracos de umbaúba,

soalhos de acapu,

Veneza não tem teu verde,

nem o canto do sanhaçu!



Mulheres pantagruélicas,

misto de peixe e de gente

que grega mitologia

tem serva mais bela e ardente?



Caboclo forte e sem medo

de guerras, de vendaval,

que antiga couraça é mais rija

que a tua, de animal?



O teu corcel é canoa,

com rédeas de pixiúba,

teu capacete de aço,

é chapéu de carnaúba



 E tu menino macrôptero,

mais gordo que um matrinchão

quantas estrelas tu fisgas

nas pontas do teu arpão?



Barracos de umbaúba,

soalhos de acapu,

Veneza não tem teu verde,

nem o canto o irapurú



Veneza não tem palmeiras,

Veneza não tem teu azul,

Veneza não tem tua gente

nem o canto do Sanhaçu!


Cidade Flutuante - Ilustração para o poema de Moacir Andrade. Sarandalhas.1967



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 A artista plastica - MADY

Juntamente com Eugênio Carlos de Almeida Barbosa (Batista)  Mady participou de diversas exposições no Brasil e exterior. Assinavam obras conjuntas  como BATISTA & MADY


Batista e Mady vida e obra: embaixadores da alma brasileira. Mario Margutti. Rio de Janeiro: Lucky, 2003. 212 p. 

Batista e Mady. Mario Margutti. 


Mady

Mady


O descobrimento do Brasil - 500 anos. Batista & Mady

Doação do jornalista, Roberto Marinho, ao Forte de Copacabana do painel "O descobrimento do Brasil - 500 anos", de autoria dos artistas plásticos Eugênio Carlos (Batista) e Messody Benoliel Benzecry (Mady)


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