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sábado, 18 de outubro de 2014

Série livros sobre Amazônia - MOQUECA DE MARIDOS - Betty Mindlin e narradores indígenas




Betty Mindlin e narradores indígenas. Moqueca de maridos: mitos eróticos. 1 ed. Rosa dos Tempos. São Paulo. 303  p. 1997



Betty Mindlin e narradores indígenas. Moqueca de maridos: mitos eróticos indígenas. 2 ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 322 p.  2014





Resenhas

Desejo, amor, satisfações e proibições são aspectos do erotismo que permeiam nossa cultura e que podem ser encontrados também nas histórias dos povos Makurap, Tupari, Wajuru, Djeoromitxi, Arikapú e Aruá compiladas em Moquecas de maridos. No entanto, de uma forma bem diferente daquilo que convencionamos chamar de erótico ou de rotular como tabu, aqui as relações entre homens e mulheres, índios e bichos, vivos e mortos nos surpreendem e nos mostram um pouco destes diferentes mundos, nos quais o amor e o conflito podem ser duros ensinamentos de regras sociais, mas também pontos de partida para desenvolver habilidades e criar objetos, como a cerâmica ou a pintura

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HISTÓRIAS NARRADAS E TRADUZIDAS POR CONTADORES INDÍGENAS E REUNIDAS POR BETTY MINDLIN NESTE RARO LIVRO DE AUTORIA COLETIVA

Desejo, amor, satisfações e proibições são aspectos do erotismo que permeiam nossa cultura e que podem ser encontrados também nas histórias dos povos Makurap, Tupari, Wajuru, Djeoromitxi, Arikapú e Aruá compiladas em Moquecas de maridos. No entanto, de uma forma bem diferente daquilo que convencionamos chamar de erótico ou de rotular como tabu, aqui as relações entre homens e mulheres, índios e bichos, vivos e mortos nos surpreendem e nos mostram um pouco destes diferentes mundos, nos quais o amor e o conflito podem ser duros ensinamentos de regras sociais, mas também pontos de partida para desenvolver habilidades e criar objetos, como a cerâmica ou a pintura. Histórias que estão muito perto de nós e que nos são tão desconhecidas foram reunidas neste livro para revelar um rico universo, ainda tão incompreendido aos nossos olhos.

·     Um dos livros mais conhecidos de Betty Mindlin;
·     Esta nova edição conta ainda com textos de apoio escritos pela autora, uma tradução do prefácio publicado na edição italiana, bem como orelha de Eliane Robert Moraes e quarta capa de Luiz Ruffato;
·     Esta obra já foi traduzida para várias línguas: o inglês como Barbecued husbands (Verso, 2004),

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o francês como Fricassée de maris, (Métailié, 2005),


Fricassée de maris
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 o italiano como Mariti alla brace, (La Linea, 2012),

http://www.edizionilalinea.it/wp-content/uploads/2012/10/Mariti-alla-brace_cover-sto.jpg
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Fonte: Record 
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Entrevista com Betty Mindlin

Fonte: http://redesestudantesindigenas.unemat.br

Betty Mindlin



Entrevista 
Nascida em São Paulo, Betty Mindlin vem de uma família apaixonada por livros; o pai (José Mindlin) tem a maior biblioteca privada do Brasil. Estudou economia, mas o interesse pelo Brasil, em particular pelo mundo indígena, foi decisivo na mudança de sua carreira. Em co-autoria com narradores indígenas, escreveu seis livros de mitos, além de outros, como Nós Paiter, em 1985, em que descreve a vida de aldeia nos primeiros anos de contato. Os direitos autorais das obras ela repassou para os índios. Em 1998, com o livro Moqueca de Maridos, recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, na categoria de literatura. Recentemente, ganhou o Prêmio Érico Vannucci Mendes de Divulgação Científica, em reconhecimento ao seu trabalho de divulgação e preservação da memória dos indígenas.
Texto: Margarete Azevedo

Nossos índios, nossos mitos 

 Por que trocou a economia pela antropologia?
Havia algo de muito técnico na teoria econômica. Eu queria saber mais sobre o Brasil. Li todos os clássicos brasileiros, por exemplo, Gilberto Freire, Antônio Cândido e todas as coisas sobre o mundo e religião africana. Os índios eram uma entre muitas possibilidades. Nasci durante a Segunda Guerra Mundial numa família judia; meu pai era bem empenhado em pensar nos problemas dos refugiados, e isso me marcou desde a infância. As pessoas são todas iguais e os povos devem ter direitos. Esta era uma idéia muito arraigada desde cedo.
Quando começou a trabalhar em campo?
Em 1977, em aldeias indígenas no interior de São Paulo. Os indígenas eram explorados como bóias-frias nas grandes plantações de cana-de-açúcar. Acabei sendo expulsa da região pelos proprietários de terra e pelos militares acusada de estar subvertendo a ordem. Fui parar em Rondônia, a convite do Apoena Meireles - uma grande figura indigenista assassinada há poucos meses -, em plena época da construção da rodovia Cuiabá-Porto Velho e do projeto Pólo Noroeste. Ela tinha como pretensão levar o desenvolvimento econômico para a região. Também fui expulsa de lá, devido ao trabalho de conscientização feito com os índios sobre os impactos negativos da construção da rodovia na floresta e nos povos da região.
Para quem não é indígena, o que é possível aprender sobre os mitos?
O mito é a fundação de uma história social, de um povo. Ele tem sentido porque reúne uma comunidade. É contado na literatura oral, passada de geração em geração, desconhecida de nós, porque nunca foi escrita e tem uma lógica que, à primeira vista, é muito diferente da nossa. Por isso, primeiro é preciso se familiarizar, pois eles fazem referência a um domínio muito profundo, a uma fonte do imaginário que é arcaica e, na minha opinião, atinge qualquer pessoa. Mas é preciso entender as referências culturais, e isso é difícil.
Você teve dificuldade em compreendê-los?
As primeiras vezes que ouvi as histórias ficava perdida, mas de repente comecei a procurar as semelhanças e as diferenças entre eles. Não é todo mundo que consegue penetrar neles rapidamente, porém, se a pessoa começar não larga mais a mitologia. A prova é o fascínio da mitologia grega ou mesmo a hindu, que é bastante desconhecida e tem público. A dos índios não foi divulgada e como eles são marginalizados e foram excluídos, desprezados e escorraçados de suas terras, sua cultura também passou a ser marginal no País.
Quais temáticas os mitos abordam?
Eles se referem muito às origens. Há um grande teórico da mitologia, Joseph Campell, para quem ela investiga o mistério da origem da humanidade e do corpo humano. O sexo também é um grande mistério. É o aparecimento dos primeiros seres. A sexualidade é algo muito forte na mitologia, a origem do sexo em si, do homem e da mulher, do poder dos homens ou das mulheres, este é um tema que existe em praticamente todas as mitologias. Depois, a origem do mundo, das estrelas, dos astros, dos rios, da terra, da plantação, da agricultura, da caça. Outra vertente fundamental é a morte. É o grande mistério. E quais são os grandes mistérios da humanidade? A vida, a morte, o amor, a sobrevivência, a matéria, a alimentação e a cooperação entre os seres humanos.
Quem são os guardiões desses mitos?
As pessoas mais velhas são as que os conhecem. Se conversarmos com os jovens, em geral, eles irão falar que não sabem sobre os mitos, mas estão começando a ouvir. Quando há tradição, as pessoas sabem deles desde criança. Os professores indígenas jovens, por exemplo, estão escrevendo sobre os mitos, porém, acham que sabem menos que os mais velhos, porque há uma relação do saber com a idade. Em geral, os pajés sabem muitos mitos. Este livro que eu fiz, Moqueca de Maridos, tem muitos mitos contados por mulheres.
Isso é comum?
É normal que as mulheres contem, mas não que elas sejam prestigiadas em certos povos. Entre os mapuches, do Chile, as mulheres são as xamãs ou pajés. Elas me contaram muitas histórias. Tínhamos uma relação tão próxima, tão amigável, que elas relataram, sem a menor censura. Há uma série de mitos que são relativos à oposição entre homem e mulher, por isso eu fiz o livro Moqueca de Maridos. É a perda de poder das mulheres. Uma das minhas histórias preferidas é a da cabeça voadora, que tem diversas versões. Este mito existe em todas as Américas. Lévi-Strauss escreveu um livro e meio sobre ele.
Os índios não têm pudor quanto à sexualidade.
Eu quis transmitir exatamente esta naturalidade que eles têm com o sexo. Eles falam de tudo e as crianças ouvem, elas também vêem o corpo. Convivi com povos que não usavam roupa. É uma diferença incrível, porque, hoje em dia, as pessoas andam quase nuas, mas têm malícia e uma relação estranha com o corpo, de proibição, de repressão.
Como foi a sua atuação no projeto Pólo Noroeste?
O meu papel era fazer um diagnóstico da situação indígena. Havia uma batalha conjunta com os índios pela demarcação de terras e condições de saúde. Acho que, no início, eles não sabiam bem o que era um antropólogo, pois existe muita resistência em revelar segredos. É necessário ter uma relação de confiança. Depois que fiz esse trabalho de avaliação da situação indígena, fundei uma ONG - Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iama) - com outras pessoas. Durante dez anos desenvolvemos diversos projetos, de educação, de saúde, de defesa dos índios. O de educação é o que considero mais bem-sucedido em minha vida, pois deixou muitos frutos.
E o projeto educacional?
Começou em 1991. Sempre achei que os índios têm o direito de ser cidadãos como qualquer pessoa. Ter acesso a todas as informações do mundo e, ao mesmo tempo, manter tudo o que quiserem, com todas as transformações que eles mesmos vão adquirindo na própria vida, mas devem conservar a língua e a cultura. No Brasil, o modelo clássico de educação, antes da Constituição de 1988, era que eles se tornassem brasileiros iguais aos outros. Depois de 1988 a idéia passou a ser contrária. Esse é o resultado de um trabalho maravilhoso que Darcy Ribeiro fez para a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Ele mostrou que os indígenas, apesar de todos os massacres, de todas as forças contrárias, continuam sendo índios. Mesmo quando eles aprendem sobre a sociedade brasileira, é uma motivação muito importante, para a humanidade, falar a própria língua, ter uma identidade, enfim, ter algo que os diferencie dos demais.
Como você vê a formação de índios professores?
Fundei este programa há pouco mais de dez anos. É uma emoção muito grande ver pessoas que estimulei a serem professores indígenas e hoje terem se tornado docentes de mão cheia. Havia índio que nunca tinha frequentado uma escola, não sabia ler nem escrever e já falava português. Outros, que não falavam português, não sabiam ler nem escrever, nem fazer contas. Atualmente, estão produzindo material didático, dando aulas, estão empenhados em escrever; outros escrevem com muita fluência, e esse é o meu maior orgulho.
A que se deve a preservação cultural dos índios do Xingu?
Ao trabalho dos irmãos Villas Boas. Na época em que o Orlando foi para lá não existiam as ONG's, nem as entidades indígenas e associações. Ele atravessou todo o período da ditadura, era muito firme. "Os índios têm o direito de manter as suas vidas, as suas culturas, não devem ficar recebendo coisas de fora." Essa era a sua política. Isso deu tempo aos índios de se defenderem; depois, desenvolveram laços maiores de autonomia. Ele tinha um respeito muito grande pelo que os índios pensavam e, às vezes, era injustamente acusado de ser paternalista.
O fato de os índios dominarem tanto a língua portuguesa quanto reforçarem a materna não contribui com a autonomia da preservação da tradição e de todo o material relacionado aos mitos?
É por aí mesmo, porque a escrita sempre foi um fator de dominação. Os egípcios, por exemplo, eram os sábios que dominavam a escrita, que procuravam esconder as coisas. Este domínio do saber, como um monopólio, é uma coisa antiga na história da humanidade. Os índios com acesso à escrita escreverão a tradição deles. Porém, há assuntos que serão mantidos em segredo. Em toda tradição oral, como o candomblé, há coisas que não são reveladas.
Você nunca encontrou dificuldade por ser mulher?
Não. Eles sempre me viram como uma figura forte, por causa dessa ponte que fiz com a sociedade brasileira. Enfrentei situações difíceis de tensão, de invasão de terras, de perseguição e de mortes, por isso eles admiram essa coragem. Eu não sei se é tão corajoso assim da minha parte, mas acho aqui mais perigoso do que lá. Às vezes, eles não entendiam o fato de uma mulher largar marido e filhos, ir para lá sozinha. Agora compreendem que as mulheres também têm esse papel. São momentos diferentes desses povos. Sempre procurei conversar sobre a relatividade dos padrões, as coisas ruins e as boas, enfim, nunca vi uma sociedade como se ela fosse superior à outra. Gente é gente com influências variadas, as tradições se misturam e não existe uma coisa única. 

 

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