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sábado, 18 de outubro de 2014

Série livros sobre Amazônia - MOQUECA DE MARIDOS - Betty Mindlin e narradores indígenas




Betty Mindlin e narradores indígenas. Moqueca de maridos: mitos eróticos. 1 ed. Rosa dos Tempos. São Paulo. 303  p. 1997



Betty Mindlin e narradores indígenas. Moqueca de maridos: mitos eróticos indígenas. 2 ed. Paz e Terra. Rio de Janeiro. 322 p.  2014





Resenhas

Desejo, amor, satisfações e proibições são aspectos do erotismo que permeiam nossa cultura e que podem ser encontrados também nas histórias dos povos Makurap, Tupari, Wajuru, Djeoromitxi, Arikapú e Aruá compiladas em Moquecas de maridos. No entanto, de uma forma bem diferente daquilo que convencionamos chamar de erótico ou de rotular como tabu, aqui as relações entre homens e mulheres, índios e bichos, vivos e mortos nos surpreendem e nos mostram um pouco destes diferentes mundos, nos quais o amor e o conflito podem ser duros ensinamentos de regras sociais, mas também pontos de partida para desenvolver habilidades e criar objetos, como a cerâmica ou a pintura

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HISTÓRIAS NARRADAS E TRADUZIDAS POR CONTADORES INDÍGENAS E REUNIDAS POR BETTY MINDLIN NESTE RARO LIVRO DE AUTORIA COLETIVA

Desejo, amor, satisfações e proibições são aspectos do erotismo que permeiam nossa cultura e que podem ser encontrados também nas histórias dos povos Makurap, Tupari, Wajuru, Djeoromitxi, Arikapú e Aruá compiladas em Moquecas de maridos. No entanto, de uma forma bem diferente daquilo que convencionamos chamar de erótico ou de rotular como tabu, aqui as relações entre homens e mulheres, índios e bichos, vivos e mortos nos surpreendem e nos mostram um pouco destes diferentes mundos, nos quais o amor e o conflito podem ser duros ensinamentos de regras sociais, mas também pontos de partida para desenvolver habilidades e criar objetos, como a cerâmica ou a pintura. Histórias que estão muito perto de nós e que nos são tão desconhecidas foram reunidas neste livro para revelar um rico universo, ainda tão incompreendido aos nossos olhos.

·     Um dos livros mais conhecidos de Betty Mindlin;
·     Esta nova edição conta ainda com textos de apoio escritos pela autora, uma tradução do prefácio publicado na edição italiana, bem como orelha de Eliane Robert Moraes e quarta capa de Luiz Ruffato;
·     Esta obra já foi traduzida para várias línguas: o inglês como Barbecued husbands (Verso, 2004),

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o francês como Fricassée de maris, (Métailié, 2005),


Fricassée de maris
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 o italiano como Mariti alla brace, (La Linea, 2012),

http://www.edizionilalinea.it/wp-content/uploads/2012/10/Mariti-alla-brace_cover-sto.jpg
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Fonte: Record 
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Entrevista com Betty Mindlin

Fonte: http://redesestudantesindigenas.unemat.br

Betty Mindlin



Entrevista 
Nascida em São Paulo, Betty Mindlin vem de uma família apaixonada por livros; o pai (José Mindlin) tem a maior biblioteca privada do Brasil. Estudou economia, mas o interesse pelo Brasil, em particular pelo mundo indígena, foi decisivo na mudança de sua carreira. Em co-autoria com narradores indígenas, escreveu seis livros de mitos, além de outros, como Nós Paiter, em 1985, em que descreve a vida de aldeia nos primeiros anos de contato. Os direitos autorais das obras ela repassou para os índios. Em 1998, com o livro Moqueca de Maridos, recebeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte, na categoria de literatura. Recentemente, ganhou o Prêmio Érico Vannucci Mendes de Divulgação Científica, em reconhecimento ao seu trabalho de divulgação e preservação da memória dos indígenas.
Texto: Margarete Azevedo

Nossos índios, nossos mitos 

 Por que trocou a economia pela antropologia?
Havia algo de muito técnico na teoria econômica. Eu queria saber mais sobre o Brasil. Li todos os clássicos brasileiros, por exemplo, Gilberto Freire, Antônio Cândido e todas as coisas sobre o mundo e religião africana. Os índios eram uma entre muitas possibilidades. Nasci durante a Segunda Guerra Mundial numa família judia; meu pai era bem empenhado em pensar nos problemas dos refugiados, e isso me marcou desde a infância. As pessoas são todas iguais e os povos devem ter direitos. Esta era uma idéia muito arraigada desde cedo.
Quando começou a trabalhar em campo?
Em 1977, em aldeias indígenas no interior de São Paulo. Os indígenas eram explorados como bóias-frias nas grandes plantações de cana-de-açúcar. Acabei sendo expulsa da região pelos proprietários de terra e pelos militares acusada de estar subvertendo a ordem. Fui parar em Rondônia, a convite do Apoena Meireles - uma grande figura indigenista assassinada há poucos meses -, em plena época da construção da rodovia Cuiabá-Porto Velho e do projeto Pólo Noroeste. Ela tinha como pretensão levar o desenvolvimento econômico para a região. Também fui expulsa de lá, devido ao trabalho de conscientização feito com os índios sobre os impactos negativos da construção da rodovia na floresta e nos povos da região.
Para quem não é indígena, o que é possível aprender sobre os mitos?
O mito é a fundação de uma história social, de um povo. Ele tem sentido porque reúne uma comunidade. É contado na literatura oral, passada de geração em geração, desconhecida de nós, porque nunca foi escrita e tem uma lógica que, à primeira vista, é muito diferente da nossa. Por isso, primeiro é preciso se familiarizar, pois eles fazem referência a um domínio muito profundo, a uma fonte do imaginário que é arcaica e, na minha opinião, atinge qualquer pessoa. Mas é preciso entender as referências culturais, e isso é difícil.
Você teve dificuldade em compreendê-los?
As primeiras vezes que ouvi as histórias ficava perdida, mas de repente comecei a procurar as semelhanças e as diferenças entre eles. Não é todo mundo que consegue penetrar neles rapidamente, porém, se a pessoa começar não larga mais a mitologia. A prova é o fascínio da mitologia grega ou mesmo a hindu, que é bastante desconhecida e tem público. A dos índios não foi divulgada e como eles são marginalizados e foram excluídos, desprezados e escorraçados de suas terras, sua cultura também passou a ser marginal no País.
Quais temáticas os mitos abordam?
Eles se referem muito às origens. Há um grande teórico da mitologia, Joseph Campell, para quem ela investiga o mistério da origem da humanidade e do corpo humano. O sexo também é um grande mistério. É o aparecimento dos primeiros seres. A sexualidade é algo muito forte na mitologia, a origem do sexo em si, do homem e da mulher, do poder dos homens ou das mulheres, este é um tema que existe em praticamente todas as mitologias. Depois, a origem do mundo, das estrelas, dos astros, dos rios, da terra, da plantação, da agricultura, da caça. Outra vertente fundamental é a morte. É o grande mistério. E quais são os grandes mistérios da humanidade? A vida, a morte, o amor, a sobrevivência, a matéria, a alimentação e a cooperação entre os seres humanos.
Quem são os guardiões desses mitos?
As pessoas mais velhas são as que os conhecem. Se conversarmos com os jovens, em geral, eles irão falar que não sabem sobre os mitos, mas estão começando a ouvir. Quando há tradição, as pessoas sabem deles desde criança. Os professores indígenas jovens, por exemplo, estão escrevendo sobre os mitos, porém, acham que sabem menos que os mais velhos, porque há uma relação do saber com a idade. Em geral, os pajés sabem muitos mitos. Este livro que eu fiz, Moqueca de Maridos, tem muitos mitos contados por mulheres.
Isso é comum?
É normal que as mulheres contem, mas não que elas sejam prestigiadas em certos povos. Entre os mapuches, do Chile, as mulheres são as xamãs ou pajés. Elas me contaram muitas histórias. Tínhamos uma relação tão próxima, tão amigável, que elas relataram, sem a menor censura. Há uma série de mitos que são relativos à oposição entre homem e mulher, por isso eu fiz o livro Moqueca de Maridos. É a perda de poder das mulheres. Uma das minhas histórias preferidas é a da cabeça voadora, que tem diversas versões. Este mito existe em todas as Américas. Lévi-Strauss escreveu um livro e meio sobre ele.
Os índios não têm pudor quanto à sexualidade.
Eu quis transmitir exatamente esta naturalidade que eles têm com o sexo. Eles falam de tudo e as crianças ouvem, elas também vêem o corpo. Convivi com povos que não usavam roupa. É uma diferença incrível, porque, hoje em dia, as pessoas andam quase nuas, mas têm malícia e uma relação estranha com o corpo, de proibição, de repressão.
Como foi a sua atuação no projeto Pólo Noroeste?
O meu papel era fazer um diagnóstico da situação indígena. Havia uma batalha conjunta com os índios pela demarcação de terras e condições de saúde. Acho que, no início, eles não sabiam bem o que era um antropólogo, pois existe muita resistência em revelar segredos. É necessário ter uma relação de confiança. Depois que fiz esse trabalho de avaliação da situação indígena, fundei uma ONG - Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (Iama) - com outras pessoas. Durante dez anos desenvolvemos diversos projetos, de educação, de saúde, de defesa dos índios. O de educação é o que considero mais bem-sucedido em minha vida, pois deixou muitos frutos.
E o projeto educacional?
Começou em 1991. Sempre achei que os índios têm o direito de ser cidadãos como qualquer pessoa. Ter acesso a todas as informações do mundo e, ao mesmo tempo, manter tudo o que quiserem, com todas as transformações que eles mesmos vão adquirindo na própria vida, mas devem conservar a língua e a cultura. No Brasil, o modelo clássico de educação, antes da Constituição de 1988, era que eles se tornassem brasileiros iguais aos outros. Depois de 1988 a idéia passou a ser contrária. Esse é o resultado de um trabalho maravilhoso que Darcy Ribeiro fez para a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Ele mostrou que os indígenas, apesar de todos os massacres, de todas as forças contrárias, continuam sendo índios. Mesmo quando eles aprendem sobre a sociedade brasileira, é uma motivação muito importante, para a humanidade, falar a própria língua, ter uma identidade, enfim, ter algo que os diferencie dos demais.
Como você vê a formação de índios professores?
Fundei este programa há pouco mais de dez anos. É uma emoção muito grande ver pessoas que estimulei a serem professores indígenas e hoje terem se tornado docentes de mão cheia. Havia índio que nunca tinha frequentado uma escola, não sabia ler nem escrever e já falava português. Outros, que não falavam português, não sabiam ler nem escrever, nem fazer contas. Atualmente, estão produzindo material didático, dando aulas, estão empenhados em escrever; outros escrevem com muita fluência, e esse é o meu maior orgulho.
A que se deve a preservação cultural dos índios do Xingu?
Ao trabalho dos irmãos Villas Boas. Na época em que o Orlando foi para lá não existiam as ONG's, nem as entidades indígenas e associações. Ele atravessou todo o período da ditadura, era muito firme. "Os índios têm o direito de manter as suas vidas, as suas culturas, não devem ficar recebendo coisas de fora." Essa era a sua política. Isso deu tempo aos índios de se defenderem; depois, desenvolveram laços maiores de autonomia. Ele tinha um respeito muito grande pelo que os índios pensavam e, às vezes, era injustamente acusado de ser paternalista.
O fato de os índios dominarem tanto a língua portuguesa quanto reforçarem a materna não contribui com a autonomia da preservação da tradição e de todo o material relacionado aos mitos?
É por aí mesmo, porque a escrita sempre foi um fator de dominação. Os egípcios, por exemplo, eram os sábios que dominavam a escrita, que procuravam esconder as coisas. Este domínio do saber, como um monopólio, é uma coisa antiga na história da humanidade. Os índios com acesso à escrita escreverão a tradição deles. Porém, há assuntos que serão mantidos em segredo. Em toda tradição oral, como o candomblé, há coisas que não são reveladas.
Você nunca encontrou dificuldade por ser mulher?
Não. Eles sempre me viram como uma figura forte, por causa dessa ponte que fiz com a sociedade brasileira. Enfrentei situações difíceis de tensão, de invasão de terras, de perseguição e de mortes, por isso eles admiram essa coragem. Eu não sei se é tão corajoso assim da minha parte, mas acho aqui mais perigoso do que lá. Às vezes, eles não entendiam o fato de uma mulher largar marido e filhos, ir para lá sozinha. Agora compreendem que as mulheres também têm esse papel. São momentos diferentes desses povos. Sempre procurei conversar sobre a relatividade dos padrões, as coisas ruins e as boas, enfim, nunca vi uma sociedade como se ela fosse superior à outra. Gente é gente com influências variadas, as tradições se misturam e não existe uma coisa única. 

 

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Serie livros sobre a Amazônia - INFERNO VERDE - Alberto Rangel

Alberto do Rego Rangel (Recife29 de maio de 1871 - Nova Friburgo14 de dezembro de 1945) foi um engenheiro e escritor brasileiroFormou-se em Engenharia pela Escola Militar do Rio de Janeiro, em 1899. No ano seguinte, com a patente de alferes, comandou uma brigada de artilharia durante a Revolta da Armada. Depois de atuar em projetos de engenharia no Maranhão e Pará, deixou o Exército (que criticou no panfleto Fora de forma, de1900) e mudou-se para o Amazonas, onde foi diretor geral da Repartição de Terras, Minas, Navegação e Colonização (1901-1904) e de secretário do governo, durante a gestão de Antônio Constantino Nery . Enquanto trabalhava para o governo do Amazonas escreveu seu primeiro livro, a coletânea de contos Inferno verde. A obra só foi publicada em 1908, com prefácio de Euclides da Cunha, de quem se tornara amigo na Escola Militar. Entrou para o serviço diplomático e viajou para  a Londres (1923) e Paris (1931).  Nesse período, pesquisou os documentos que serviriam de base para seus livros de temas históricos e biográficos, além de continuar escrevendo contos. No início da II Guerra Mundial, deixou seu cargo no consulado brasileiro em Paris e voltou para o Rio de Janeiro.  Foi autor tambem das obras:  Fora de forma (1900), Sombras n´água (1913); Livro de Figuras (1921); Papéis pintados (1928); Fura mundo (1930), A Educação do Príncipe (1945), Os dois ingleses e Marginados.

Fonte: Adpatado de Wikipedia e outras fontes 







Alberto Rangel. Inferno Verde. Genova. Cliches Celluloide Bacigalupi. Genova. 1 ed. 1908











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Alberto Rangel. Inferno Verde. Minerva. Rio de Janeiro (?) . 2 ed. 290 p. 1914




Alberto Rangel. Inferno Verde. Minerva. Rio de Janeiro. 2 ed. 290 p. 1914


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Alberto Rangel. Inferno Verde: scemas e scemario do Amazonas. Rio de Janeiro ?. Autor ?. Genova. 3 ed. 1920. 283p.





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Alberto Rangel. Inferno Verde. Genova. Typographia Arrault & Co. Rio de Janeiro. 4 ed. 19xx


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Alberto Rangel. Inferno Verde: cena e cenários do Amazonas. Manaus. Valer (Edições do Governo do Estado). 5 ed. 169 p. 2001 (Serie Resgate, 2)


Capa




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Alberto Rangel. Inferno Verde. Valer. Manaus. 6 ed. 166 p. 2008. ISBN 8586512877

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Resenha: Alberto do Rego Rangel, nasceu em 1871 na cidade de Recife e faleceu em 1945 em  Nova Friburgo, RJ. Formado em engenharia pela escola militar, sua estréia nas letras se deu com o panfleto "Fora de Forma", em 1900, explicando sua resolução de abandonar o exército. Feito diretor-geral de terra e colonização na Amazônia e mais tarde secretário de governo do Estado do Amazonas, lá realizou numerosos estudos e encontrou Euclides da Cunha, incubido do reconhecimento do auto Rio Purus, de quem se tornou amigo. Ingressando na diplomacia, esteve vários anos na Europa, encarregado de pesquisar documentos a respeito do Brasil. Dessas buscas nos arquivos europeus nasceram vários livros, de ensaios, história, biografias, etc; e de sua estada na Amazônia resultou "Inferno Verde", que teve grande repercussão na época, suscitando até imitações, em que é narrado o drama do homem tiranizado pelo meio, numa prosa barroca e tropical, luxuriante como a natureza amazônica.

(Fontes: Raimundo de Menezes, "Dicionário Literário Brasileiro", 2ª edição, 1978; Celso Pedro Luft, "Dicionário de Literatura Portuguesa e Brasileira", Globo, 2ª edição, 1969; e Lucréia D'Alvessio Ferrera, "Pequeno Dicionário de Literatira Brasileira, biográfico, crítico e bibliográfico", org. e dir. José Paulo Paes e Massaud Moisés, Cultrix, 1969).

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Alberto Rangel foi amigo de Euclides da Cunha desde o tempo de estudantes na Escola Militar da Praia Vermelha, onde, em novembro de 1888, assistiu, em formação, o ato de rebeldia de Euclides no famoso episódio do sabre. Quando em dezembro de 1904, o autor de “Os Sertões” chegou a Manaus chefiando a comissão de Reconhecimento do Alto Purus, foi recebido no cais por Rangel que lhe ofereceu para morada sua casa, a Vila Glicínia, a bucólica “Tebalda” com alpendre para a borda da mata amazônica.Dos estudos dos dois escritores, surgiu o livro “Inferno Verde” de Alberto Rangel, publicado em 1908 com um longo e primoroso prefácio escrito por Euclides da Cunha; embora distantes, os dois amigos correspondiam-se regularmente; em 15 de agosto de 1909 quando Euclides foi assassinado, Alberto Rangel encontrava-se na França e só voltou ao Brasil em dezembro desse ano. 
Fonte: http://betobertagna.com/2012/09/20/livros-que-ajudam-a-entender-rondonia-%E2%80%93-14-%E2%80%93-inferno-verde/
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RESENHA
Terra caída, a vingança da natureza

RESUMO: Propõe-se neste artigo uma leitura de um dos capítulos de Inferno Verde, de Alberto Rangel, focalizando uma das narrativas do livro, intitulada “Terra caída”. Com base nas imagens dessa narrativa, apresenta-se região amazônica como um inferno disfarçado de paraíso verde. A terra, antagonista do homem, é um contraespaço, que o estrangula e aniquila, tratando-o como um invasor indesejado. Enfim, a terra vinga-se do homem que a agrediu primeiro, perpetuando a sua vingança. É essa visão da terra, personificada e antagonista, que a narrativa veicula, em imagens impressionantes. Este artigo procura explorar essas imagens.

PALAVRAS-CHAVE: Inferno Verde, terras caídas, Amazônia.


     Quando abrimos o livro Inferno Verde, de Alberto Rangel, deparamos com um sumário que nos oferece, à maneira de um cardápio, onze narrativas ambientadas na Amazônia. Essas narrativas podem ser lidas de forma horizontal ou de forma vertical. Na leitura horizontal, considerando cada narrativa como um todo individual, temos um livro de 11 contos dispostos em sequência, apresentando, cada um à sua maneira, flagrantes dos seringais e das brenhas Amazônicas; na leitura vertical, que é a de minha preferência, a individualidade das narrativas é apenas aparente, uma vez que cada relato é somente parte de um todo, formando no seu conjunto um romance de 11 capítulos. A verticalidade da obra justifica-se por dois fios condutores que interligam todas as narrativas: o primeiro é o narrador viajante, que percorre a Amazônia como topógrafo, explorando, reconhecendo e medindo a terra, e ao mesmo tempo registrando os flagrantes observados nas diferentes paragens; o segundo é a própria Amazônia, alçada sempre à condição de personagem, personificada e antagonista do homem caracterizado como invasor.
     Euclides da Cunha, que lavrou o preâmbulo de Inferno Verde (2001, p. 29), vê os relatos do livro como “comoventes lances de uma deplorável agonia coletiva, em onze capítulos, que são onze miniaturas de Rembrandt, refertas de apavorante simbolismo”. Ou seja, são narrativas que, pelo teor lúgubre que possuem, justificam muito bem o título da obra, que metaforiza a região amazônica como um inferno disfarçado de paraíso verde. O autor de Os Sertões parece entrar em contradição ao dizer que a Amazônia é apavorante assim mesmo, sugerindo que Alberto Rangel registrou em seu livro a região tal qual ela é, sem alterar nada, copiando-a como quem faz um decalque. Mas logo em seguida assegura que o que Rangel escreveu, na verdade, foi o registro de suas vertigens de homem “assombrado” diante daquelas cenas e cenários, movido por uma “tristeza exasperada”. A contradição se configura na antítese subentendida entre a fidelidade de Rangel à realidade observada, por um lado, e a abundância de hipérboles que traduzem o assombro do viajante intruso na região, por outro lado.
     Uma das cenas de “apavorante simbolismo” é o capítulo intitulado “Terra caída”. O caboclo José Cordulo, personagem central dessa narrativa, era agricultor, homem muito trabalhador, a ponto de ganhar a fama de “caboclo onça”. Criava algumas cabeças de gado e cuidava de um roçado ao redor de sua tosca barraca, às margens do Amazonas, onde utilizava o sistema primitivo de queimar e encoivarar, a fim de dar curso ao trabalho de plantio. Casara-se com Rosa, moça rio-grandense do norte, e tiveram 4 filhos. Vivia contente com os filhos, para os quais sempre reservava expressões de carinho. Era feliz, mesmo diante das privações que enfrentava. A peste acometia o gado, a saúva comia a roça, o “mal” atacava as fruteiras. Mas nada disso abatia a felicidade do caboclo. É nas palavras abaixo que tomamos conhecimento da sua incansável faina:
“Sempre de terçado em punho, do nascer do sol até quando descambasse o poente, o Cordulo não largava o trabalho. O descanso era para a caça ou o ‘marisco’ , ou para entaniçar o tabaco, ou calafetar a canoa... só se afastava da lavoura e criação raramente, quando obrigado pelo ajuri, ou por servir de padrinho em Itacoatiara, ou então por motivo excepcional ou grave; porque a terra, de tão fecunda, prejudicava...” (RANGEL, 2001, p. 63)
     É possível ao leitor “visualizar” a casa de José Cordulo, a que o narrador chama de “barraca”, situada nas barrancas do rio. É um cenário que o narrador faz questão de “marcar” topograficamente, como que preparando o leitor para a tragédia que se abaterá sobre esse mesmo cenário: à frente da casa há uma mongubeira (árvore); de um dos lados, algumas plantações que o caboclo cultiva: laranjeiras, coqueiros, um cupuzeiro, bacabeiras e pupunheiras. A maioria das plantas estão estorricadas e amarelecidas pelas mazelas do clima e das pragas; do outro lado, o curral destinado às poucas cabeças de gado.
     Após identificar José Cordulo e sua condição de ribeirinho extremamente pobre mas trabalhador obstinado, o narrador passa a focalizar a relação do caboclo com a natureza, configurada como uma relação de antagonismos extremados. De um lado, está o homem que, favorecido pelo verão, avança contra a floresta, tendo como auxiliares o machado, o terçado e o fogo, seu colaborador mais eficaz. É a faina devastadora do homem em ação, em nome da sobrevivência. Seu sistema de plantio é extremamente primitivo, valendo-se da queima e do encoivaramento após cada derrubada. Trata-se, portanto, de um sistema predatório, mas é a única metodologia possível ao caboclo. O mês de setembro, por exemplo, “é o mês fuliginoso e crepitante das queimadas. Rasgam a floresta amazônica as labaredas de milhares de incêndios. Parece que o delírio da chama vai converter num só mar ígneo os plainos de entorno. E nada subsistirá. Nem mais uma verde copa de árvore nessa algara de fogo...” (RANGEL, 2001, p. 64) Mas, chegadas as primeiras chuvas que anunciam o inverno, ocorre o milagre reverdecente da terra. A terra se defende, procurando se regenerar: Se o Cordulo fechasse os olhos, quando os abrisse, a floresta pertinaz tornaria a ocupar o lugar donde fora repelida. (RANGEL, 2001, p. 63)
"A mata faz do lavrador uma sentinela alerta. Abandone o homem o seu posto e ela vigorosamente irrompe pelas linhas do roçado, deste apoderando-se de novo. E, então, a dificuldade aumenta. A floresta ressurgida atabafa-se de rebentos e espiques, vergônteas e pedúnculos, vem em capoeira, isto é, mais adensada de ramas e de hastes finas, mais impenetrável portanto.” (RANGEL, 2001, p. 64)
     Há, como se percebe, um clima constante de enfrentamento entre esses dois seres: a floresta (personificada) e o homem (um intruso que a ameaça). Isto nos leva a entender a Amazônia não como um espaço, mas como um “contraespaço” (melhor seria dizer um “não-espaço”?) ao longo da narrativa. Ela é uma antagonista do homem, chegando a sufocá-lo e estrangulá-lo. É por isso que Euclides da Cunha, em um À margem da história (1909), um livro anterior a Inferno verde, cuja primeira edição veio a lume em 1927, vê o homem, na região, como “um ator agonizante” agitando-se e vivendo miseravelmente em meio aos cenários vivos de rios e floresta.
Feita essa digressão a respeito da antinomia homem x natureza, o narrador deixa no leitor a impressão de que esta vai, em algum momento, vingar-se das investidas do caboclo. E na verdade isto é o prenúncio da referida tragédia que logo será comunicada ao leitor.
      Sintomaticamente, o narrador remove José Cordulo de sua casa, o espaço trágico, promovendo uma separação entre homem e terra. A família foi convidada para uma festa (pagode) na casa de outro caboclo, de nome Pacu, no sábado à noite. Uma festa que atravessou toda a noite e continuou no domingo, sem a menor pressa para terminar, atravessando mais uma noite. Cordulo, enfastiado com o frenesi das danças e movido pela preocupação com o trabalho do dia seguinte na lavoura, despedia-se de todos a fim de voltar a sua terra, quando a agitação da festa foi paralisada por um barulho assustador, como um trovão. Era o fenômeno das terras caídas, comum na região, já sobejamente conhecido dos caboclos ali reunidos.
Esse fenômeno das “terras caídas” é descrito por vários cronistas viajantes, e também por cientistas que estiveram a serviço ao longo dos grandes rios. O próprio Euclides da Cunha refere-se a ele várias vezes em Amazônia, um paraíso perdido, quando focaliza o rio Purus, como no fragmento que transcrevemos a seguir:

"O fato é vulgaríssimo. Conhecem-no todos os que por ali andam. Não raro o viajante, à noite, desperta sacudido por uma vibração de terremoto, e aturde-se apavorado ouvindo logo após o fragor indescritível de miríades de frondes, de troncos, de galhos, entrebatendo-se, rangendo, estalando e caindo todos a um tempo, num baque surdo e prolongado, lembrando o assalto fulminante de um cataclismo e um desabamento da terra. São, de fato, as ‘terras caídas’... (CUNHA, 2003, p.69)
     Por ser sobejamente conhecido, o acontecimento não mais causava maiores preocupações para os caboclos. Para os navegantes sim, era um entrave dos maiores, pelo fato de as barrancas arrancadas pela voracidade das águas formarem verdadeiros “bancos” ou “barreiras” de terra nos canais de navegação.
      O certo é que Cordulo não dera muita importância ao “barulho de trovão” que ouvira anunciando mais um espetáculo de terras caídas. Navegando pelo rio revolto, empreende a volta para casa em meio à escuridão. Mas ao aproximar-se de seu terreno percebe que alguma coisa estranha acontecera. Em meio à escuridão, descobre que a casa tinha sido arrastada pelo rio, que na correnteza levara todos os seus pertences.
     Aquele cenário, “marcado topograficamente” no início da narrativa, em que se encontrava a sua barraca, desaparecera: a mongubeira, a barraca, o curral, as laranjeiras, o cupuzeiro, os coqueiros e bacabeiras, tudo havia sido levado pelo rio, na sua gula esfaimada:
"Escapara o Cordulo de um alçapão, com o prejuízo de cinco anos de trabalho incessante. Tanto esforço, dia a dia, hora a hora, e os sonhos, o suor e os seus bens, aniquilados com o absurdo, o sumiço da própria terra! Quando o futuro se lhe arquitetava no que há de mais sólido, ruía essa mesma base! Fundar na terra seria construir nas nuvens..." (RANGEL, 2001, p. 70)
     Cordulo, após se refazer um pouco do susto e da desagradável surpresa, procurou uma encosta menos íngreme no barranco e subiu determinado, às apalpadelas. Mesmo nesse momento, a natureza o repelia e agredia, como se fora um inimigo que se aproximasse: “no alto rostrado as árvores da queimada receberam o homem, agredindo-o a chuçadas”. (GEL, 2001, p. 70)
      Era a vingança da natureza.
     Mas Cordulo era obstinado. “No dia seguinte, a vítima era um vencedor, plantando no chão, no alto da terra caída, o esteio de sua nova habitação”. (RANGEL, 2001, p. 70)
   Evidentemente, o narrador construiu, com esta narrativa, uma alegoria do Amazonas, tomando Cordulo e seu pedaço de terra como metonímias, ou seja, partes que simbolizam o todo: Cordulo representa o caboclo, de forma genérica, e seu pequeno terreno representa a Amazônia.
     O narrador, que deveria deixar ao leitor o trabalho de perceber a alegoria e explorar o seu sentido, toma para si essa prerrogativa e explica:
"a 'terra caída' bem pode ser a definição do Amazonas. Por vezes, no seu terreno aluvial tudo repentinamente vacila e se afunda, mas reconstitui-se aos poucos. Cai a terra aqui, acolá a terra se acresce. Resulta que, nesse jogo de erosões e de aterros, o esforço do homem é o de Atlas sustentando o mundo e a sua luta é a de um Sísifo invertido. (RANGEL, 2001, p. 70)
     É claro que essa explicação desnecessária traduz-se como uma falha, pois o texto literário deve deixar sempre o espaço do leitor. Cabe ao escritor criar as imagens, mas a atribuição de sentido às imagens criadas é papel do leitor.
    Ao afirmar a sua narrativa como uma alegoria do Amazonas e sua situação de instabilidade, o homem é engrandecido. Seu esforço é comparado ao de Atlas que, segundo a mitologia grega, foi punido por Zeus com a dura tarefa de carregar o mundo nas costas, porque liderou o exército dos Titãs numa revolta contra seu domínio, a pedido de Cronos (líder mais antigo dos deuses gregos). Ser Atlas é carregar sempre uma expressão de angústia, refletindo o pesado fardo que se é obrigado a carregar, mas é também carregar o peso com obstinação.
      Ainda navegando nas águas da mitologia, a faina do caboclo é comparada à luta de Sísifo, o mais astuto de todos os mortais, que enganou até mesmo a morte e, por causa de suas ofensas aos deuses, recebeu como castigo a condenação de, por toda a eternidade, empurrar sem descanso um grande rochedo de mármore com suas mãos até o cume de uma montanha, sendo que toda vez que ele estava quase alcançando o topo, a pedra rolava novamente montanha abaixo até o ponto de partida por meio de uma força irresistível. Por esse motivo, tarefas que envolviam esforços inúteis passaram a ser chamadas "trabalhos de Sísifo", ou seja, trabalho inútil e sem esperança. Mas o Sísifo amazônico é invertido: seu sacrifício nada tem a ver com rochedo ou montanha, mas com erosões e aterros que materializam a vulnerabilidade da região.
     Trata-se, é claro, de uma visão visceralmente negativa e pessimista sobre a Amazônia, mas essa é a proposta do livro: a metáfora do inferno disfarçado de paraíso. Assim o autor utiliza nesta narrativa um fenômeno comum do rio Amazonas e grandes afluentes, em todo o seu percurso de planície, que são as “terras caídas”, resultantes do solapamento das margens. As águas do rio provocam o desprendimento das terras, levando-as para outros lugares. E junto com as terras arrastadas, o rio leva também tudo que nelas foi plantado ou construído, deixando para trás um rastro de desolação e tristeza. Rangel retira de sua oficina literária as tintas mais escuras para pintar, a partir daí, uma das muitas faces do “inferno” que o livro se propõe descrever: a terra vinga-se do homem que a agrediu primeiro. É realmente a “vertigem de um homem assombrado”, como Euclides da Cunha classificou o livro e seu autor, Alberto Rangel.

REFERÊNCIAS

BRUNEL, Pierre. (org.) Dicionário de mitos literários. Rio de Janeiro: José Olympio, 1997.

CUNHA, Euclides da. Amazônia, um paraíso perdido. Manaus: EDUA, 2003 (Poranduba).

RANGEL, Alberto. Inferno Verde. 5ª ed. Manaus: Valer / Governo do Estado do Amazonas, 2001 (Resgate II).

TOCANTINS, Leandro. O Rio comanda a vida – uma interpretação da Amazônia. Rio de Janeiro: Record, 1968.

Fonte: www.professorguedelha.recantodasletras.com.br

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Série livros sobre a Amazônia - Amazônia 20º andar: De Ipanema ao Topo do Mundo, uma jornada na trilha de Chico Mendes - Guilherme Fiúza



Amazônia 20º andar
Guilherme Fiúza. Amazônia 20º andar: De Ipanema ao Topo do Mundo, uma Jornada na Trilha de Chico Mendes. Record. Rio de Janeiro.  1 ed. 272 p.  2008. ISBN: 850107991X 


Resenha

 Escrito pelo jornalista Guilherme Fiúza, mesmo autor do sucesso "Meu Nome Não é Johnny", o livro "Amazônia 20º andar: De Ipanema ao Topo do Mundo, uma Jornada na Trilha de Chico Mendes" (Record, 2008) mostra a saga de uma estilista e um empresário bem sucedidos que trocam vidas confortáveis no Rio de Janeiro pelo sonho de salvar a Amazônia. Os dois amigos conhecem o líder seringueiro Chico Mendes em uma passeata no Rio de Janeiro, um mês antes dele ser assassinado. Descobrem dessa forma que a Amazônia não poderia ser salva com passeatas à beira-mar. Decidem largar tudo e iniciar um projeto que fosse rentável também para os povos da floresta. Em alguns meses, os dois erguem uma indústria de couro vegetal que alcança Paris e Nova York. A história é repleta de paixões, traições, perigo, muito dinheiro, façanhas e também fracassos.

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Resenha II

A aventura de Bia Saldanha e João Augusto Fortes - uma estilista e um empresário do ramo da construção civil -, que foram para a Amazônia realizar um antigo sonho de fabricar couro vegetal, virou tema do mais recente livro do jornalista Guilherme Fiúza: ?Amazônia 20º andar - De Ipanema ao topo do mundo, uma jornada na trilha de Chico Mendes?, lançado pela editora Record.
Além de contar a história de Francisco Alves Mendes Filho ? o ?Chico Mendes? ?, grande seringueiro e ativista ambiental brasileiro, a obra descreve a trajetória de Fortes e Saldanha desde o dia em que eles deixaram a Zona Sul do Rio de Janeiro rumo à selva tropical para confeccionar o couro vegetal. Em plena floresta, eles se juntaram a índios e seringueiros do Acre e criaram uma linha de montagem que se tornou pioneira na fabricação do produto sustentável, levando a moda do couro vegetal para o mundo. O empreendimento dos dois deu tão certo que transformou o produto em artigo de luxo e já ajudou 200 famílias de índios e seringueiros envolvidos no projeto, que tiveram suas rendas familiares aumentadas em até 15 vezes com a fabricação das bolsas de couro vegetal. Uma história interessante, que pode ser conferida na íntegra no livro de Fiúza!

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Entrevista com Guilherme Fiúza (Fonte: Folha Online)

O escritor Guilherme Fiúza, autor dos livros "Amazônia 20º Andar" e "Meu Nome Não É Johnny"
Livraria da Folha - Sua última obra, "Amazônia 20º Andar", trata de um assunto fortemente relacionado com um dos homenageados da feira deste ano, o estado do Amazonas [os outros homenageados são o Chile e a poeta Cora Coralina]. Gostaria de saber o que você acha de tantas atenções voltadas para a Amazônia?
Fiúza - [O livro] conta a história de uma pessoa que sai da cidade com tudo resolvido, uma vida confortável. Ela deixa essa vida para trás, pondo tudo a perder para ir atrás desse enigma, que é a vida selvagem. Respondendo a sua pergunta, acho que é porque a Amazônia é um grande fetiche. Tenho a petulância de dizer que a maioria das pessoas que se preocupam com a Amazônia não sabem bem porque elas tão preocupadas. Eu tenho a impressão que a Amazônia está tão em evidência porque o Brasil, em especial, tem uma inquietude enorme sobre qual é o seu interesse lá. A Amazônia é um prodígio: maior floresta tropical do mundo! Isso é quase um orgulho ufanista. Por outro lado, é um símbolo de atraso, de mosquito, de vida pobre, de tragédia, de crime, de ausência de Estado, de ausência de civilização. No fundo, a sociedade não sabe bem o que fazer com esse símbolo. O meu livro é mais ou menos a história da demolição do romantismo em torno da Amazônia. A Bia [protagonista] vai para a floresta por uma utopia, imaginando uma floresta cor de rosa que ela quer salvar. Ela realiza o sonho dela, que é se aliar a índios e seringueiros para ganhar o mundo com seu produto. Mas junto ao sonho tem uma série de pesadelos que é ela caindo na real de quanto aquele lugar é inóspito, cruel, feio, às vezes. É um lugar fascinante, mágico, mas que tritura as pessoas que se arriscam a ir para lá.
Livraria da Folha - Há algum paralelo entre "Amazônia 20º Andar" e "Meu Nome Não É Johnny"?
Fiúza - O livro "Amazônia 20º Andar" tem essa coisa curiosa, da mesma maneira que o Johnny [ "Meu Nome Não É Johnny" ] é um cara bem nascido, da classe média e através do olhar dele a gente vai pro submundo, não por um olhar de um criminoso, de um cara que infelizmente já nasceu na periferia da sociedade. É um olhar muito rico, de um cara levando aqueles solavancos todos. E no "Amazônia 20º Andar" acontece uma coisa muito parecida: uma pessoa que sai com todos os códigos da cidade e na primeira vez que ela chega à Amazônia, pega um taxi que, na verdade, é um transporte que vai levá-la à cidade de Boca do Acre. Ela entra tranquilamente naquele taxi e, no meio da viagem, se vê no meio do nada, com um motorista louco, psicopata, que tem um revolver na cintura, onde tudo pode acontecer com ela. Isso é só uma caricatura de uma visão muito rica de alguém da cidade indo pra floresta sem a ONG, sem o deputado, sem as estatísticas e os satélites. Uma pessoa de carne e osso vendo aquele mundo tão estranho.
Livraria da Folha - E você? Teve a oportunidade de viver em carne e osso essa realidade?
Fiúza - Tive. Eu não tive a experiência que esses personagens tiveram, porque eles levaram a vida deles pra lá. E aí eles sentiram tudo mesmo na carne, de bom e de ruim. Eu fui fazer reportagem, e certamente não mergulhei tão profundamente

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No coração da selva

Entrevista para o GI (Globo, em 01/02/09) para Luciano TrigoAutor de Meu nome não é Johnny fala sobre seu novo livro, Amazônia 20º andar
fiuza-divulgacao.JPGfiuza-capa.jpgAmazônia 20o andar, o novo livro do jornalista Guilherme Fiúza, tem alguma coisa em comum com seu trabalho anterior, Meu nome não é Johnny: ambos retratam pessoas de classe média alta que mergulham em universos totalmente estranhos ao seu meio e à sua formação. Se João Estrella se tornou uma espécie de traficante acidental, mostrando por via ilícita como estão perigosamente próximos dois mundos paralelos dentro da cidade do Rio de Janeiro, os protagonistas de Amazônia 20o andar (Record, 272 pgs. R$42) – uma estilista rica e um empresário bem-sucedido - também trocaram uma rotina de conforto por uma aventura igualmente arriscada - esta, no coração da Floresta Amazônica. Após conhecer Chico Mendes numa passeata na orla carioca, um mês antes do assassinato do líder seringueiro, Bia Saldanha percebeu que de pouco adiantaria um “ecologismo de butique”; decidiu então fechar sua loja, terminar seu casamento e viajar para o Acre. Seu sonho foi compartilhado pelo empresário João Augusto Fortes, que largou o alto cargo que ocupava numa construtora e apostou tudo no projeto de desenvolver uma indústria de couro vegetal. O livro de Fiúza conta essa dupla trajetória, ao mesmo tempo em que coloca em questão mitos sobre a Amazônia e a defesa da floresta.
G1: Já há alguns anos, você optou por deixar as redações para trabalhar em casa, em duas frentes: livros e internet. Como enxerga a situação atual e o futuro do jornalismo? Já existem coisas mais interessantes para ler nos blogs que nas páginas da grande imprensa? Como isso afetará o mercado?
GUILHERME FIÚZA: Estava começando no Jornal do Brasil, no final dos anos 80, e numa daquelas assembléias históricas que paravam a redação me fixei numa frase da representante do sindicato: “Nossa matéria-prima é a informação.” Na hora, pensei: “Opa, acho que não peguei o espírito da coisa.” Para mim, ainda terminando a universidade, a informação era apenas uma das matérias-primas do jornalismo. Aquele grande JB era, aos meus olhos, um coquetel de informação, crítica, opinião, estilo, design, humor, um lugar de pensar. E, acima de tudo, um ponto de encontro. A maior importância do que estava escrito ali se devia ao fato de que você lia sabendo que todo mundo estava lendo a mesma coisa. Isso acabou. A internet, os novos meios enfim, multiplicaram as facetas da mídia, o que é ótimo. Mas o ponto de encontro está acabando. Mesmo um Jornal Nacional ou uma Veja não te dão mais aquela velha certeza de que aquilo está sendo visto instantaneamente por “todo mundo”. A comunicação de massa chegou ao mesmo tempo à apoteose e ao divã. Se a mídia virar uma feira grandiosa onde ninguém se encontra, não será mais mídia. A informação sobrevive a isso. Mas aquele delicioso coquetel do velho JB não chega por celular. Talvez o desafio do jornalismo seja criar novos pontos de encontro para a inteligência.
G1: Amazônia 20º andar começou a ser gestado já na época do assassinato de Chico Mendes. O que mudou na sua leitura sobre a questão da Amazônia e sobre Chico Mendes, nesses 20 anos, e por que você finalmente decidiu escrever o livro?
GUILHERME: O livro foi gestado em um ano. Acompanho a questão da Amazônia há 20 anos, quando fui repórter de meio ambiente. Mas, para ser sincero, enjoei desse assunto há muito tempo. O que me motivou a escrever o livro foi a aventura humana dos protagonistas, que largam suas vidas ganhas na cidade, pondo tudo a perder na floresta. Uma história que começa com Chico Mendes barrado por banhistas em Ipanema… O inusitado é sempre um bom caminho.
G1: O livro trata da trajetória de dois empresários, que tentam viabilizar um negócio ao mesmo tempo lucrativo e ambientalmente correto, explorando o couro vegetal. Mas a ecologia nem sempre dá lucro. Você acha que o caminho para evitar que a floresta continue a ser destruída passa por um projeto de desenvolvimento econômico auto-sustentado? 
GUILHERME: Não sei, francamente, qual a melhor solução contra a destruição da floresta. Acho que o livro também não pretende apontá-la. Mas uma coisa é certa: essa Amazônia das imagens de satélite, das estatísticas de desmatamento, dos relatórios de manejo, não comove ninguém. É abstrata demais, chata demais. A Amazônia tem muitas caras, Chico Mendes foi uma delas – e aí tem saída. Acho que meus personagens, urbanos, também dão cara à Amazônia.
fiuza-trecho1.jpgG1: O que leva dois empresários bem-sucedidos a largar uma vida de conforto na zona sul do Rio e se embrenhar na floresta? Que avaliação se faz dos resultados desse projeto hoje?
GUILHERME: João Augusto Fortes e Bia Saldanha são duas almas inquietas. Idealistas, empreendedores, às vezes quase megalômanos. Todo mundo tem um pouco desse sonho de virar a vida do avesso para ver o que acontece. Mas a maioria sublima isso no cinema. Eles levaram ao pé da letra. Os dois passaram vários sufocos e conquistaram muita coisa. Dá para dizer que ganharam tudo e perderam tudo. Foram perseguidos, acusados de cegar índios e escravizar seringueiros, premiados pela ONU e consagrados nas capitais mundiais da moda. O projeto colapsou, deixou boas sementes e feridas pessoais, e a lição de que a Amazônia não será salva com slogans em Ipanema, discursos em Brasília ou relatórios de ONGs.
G1: A realidade da floresta é praticamente desconhecida pela mídia e, por extensão, pela sociedade como um todo. A Amazônia só é lembrada em casos como o do assassinato da irmã Dorothy. Quais são os problemas mais urgentes da região hoje, e como você avalia a ação do governo?
GUILHERME: Acho que a Amazônia, para a opinião pública, é quase um fetiche. Um pulmão mundial, um jardim gigante, um baú do tesouro genético e por aí vai. O ex-governador do Acre, Jorge Viana, diz que o ministro Mangabeira Unger não vai resolver os problemas da região, mas vai ganhar um bom dinheiro dando palestras sobre ela para o resto da vida. A Amazônia abstrata dá muito mais ibope – e voto – que a Amazônia concreta.
G1: O que você acha do debate sobre a internacionalização da Amazônia?
GUILHERME: O brasileiro adora o slogan “A Amazônia é nossa”. Já os personagens do livro, depois de andar por diversas localidades da região onde o Estado não existe, onde a pistola é a lei, onde o dinheiro não pode chegar porque não existe alguém com carteira de identidade para receber, perguntam-se: “Nossa de quem, cara pálida?”
G1: Já existem propostas para transformar Amazônia 20o andar em filme?
GUILHERME: Dois produtores já leram o livro. Disseram que perderam o sono com a história – não sei se porque gostaram muito, ou pela quantidade de dinheiro que terão que levantar.
G1: Sobre Meu nome não é Johnny: como o sucesso do livro e do filme afetaram o debate sobre as drogas, o tráfico, a violência e a juventude no Brasil? Você considera que estão sendo feitos avanços? Em que sentido?
GUILHERME: Não sei se chegou a afetar o debate. As drogas são um tema muito difícil, cheio de tabus e de confusões entre segurança pública e a questão mental. O fuzil e o baseado se encontram na vida urbana, mas tratá-los como um problema só é o melhor caminho para não resolver nenhum deles. Acho que o Meu nome não é Johnny funcionou um pouco como um espelho (sem trocadilho) para a multidão de pessoas comuns que já passaram (bem ou mal) pela loucura das drogas, e das que não passaram e têm curiosidade, ou medo, ou preconceito em relação ao tema. Tenho a impressão de que não é muito comum a retratação desse universo de forma tão franca, com as delícias e as dores expostas sem filtro ou catequese. A força do Johnny talvez esteja numa história que não é de drogas ou de tráfico, mas de um cara comum às voltas com a sua própria porralouquice. Mas tenho dificuldade de ver avanços na discussão sobre entorpecentes. Acho que continuam existindo aí dois planetas distintos: o dos que se drogam e o dos que dizem a eles que não é bom se drogar. É uma conversa de surdos, com um único traço comum: o preconceito recíproco entre os dois planetas. Nesse caminho, teremos cada vez mais jovens ETs nas salas de aula e de janta

sábado, 4 de outubro de 2014

Série livros sobre a ~Amazônia - A INVENÇÃO DA AMAZÔNIA - Neide Gondim




Neide Gondim. A invenção da Amazônia. Marco Zero. 1994. 1 ed. 278 p. ISBN 8527901692








Neide Gondim. A invenção da Amazônia. Valer. 2007. 2 ed. 339 p. ISBN 857512143



  • "As potencialidades imaginárias que os autores de ficção pensam existir na Amazônia ainda guardam o vigor dos tempos primeiros dos navegadores de águas turvas e cristalinas do rio das Amazonas e de seus tributários no bordado de suas estradas líquidas."
- Neide Gondim, escritora amazonense. In: _________. A Invenção da Amazônia.

'Esse estudo tão abrangente, e por isso mesmo aberto para outros textos e novas leituras sobre a região, nos permite rever uma região através das visões distorcidas que perduram, pois a Amazônia, enquanto 'periferia exótica' de um Brasil desagregado, em crise crônica, ainda é um desafio em um lugar da utopia.' - Milton Hatoum

Sinopse - A invenção da Amazônia - Neide Gondim

O livro tem apresentação de Márcio Souza, orelhas de Octávio Ianni e comentário de Milton Hatoum em matéria publicada na Folha de São Paulo, que diz: "Esse estudo tão abrangente , e por isso mesmo aberto para outros textos e novas leituras sobre a região, nos permite rever uma região através das visões distorcidas que perduram, pois a Amazônia, enquanto "periferia exótica" de um Brasil desagregado, em crise crônica, ainda é um desafio em um lugar da utopia".


A Invenção da Amazônia


Se a América foi inventada por um sonho expansionista europeu, a Amazônia podia constituir, talvez mais que em qualquer outro lugar do mundo, como continuidade desse devaneio. Do século XVI ao XIX, a região foi literalmente invadida pelo homem europeu.
Gondim afirma que “a Amazônia foi uma invenção”, pois a Amazônia não foi descoberta, esse termo só foi intitulado com a chegada dos portugueses.
Como se pode descobrir algo que já existe há centenas de anos?
Souza afirma “que quando os europeus chegaram ao século XVI, a Amazônia era habitada por um conjunto de sociedades hierarquizadas”. Ou seja, a partir dessa afirmação, vale ressaltar que a Amazônia brasileira já existia antes da chegada dos colonizadores.
A invenção da Amazônia se deu a partir dos relatos de viagens escritos pelos viajantes, missionários, etc. No livro A invenção da Amazônia (2007), de Neide Gondim, temos um painel dos primeiros viajantes cronistas, como também dos ficcionistas, que escreveram sobre aquela região até o século XX. A grande maioria desses aventureiros deixa o seu registro de entusiasmo, preconceito e fantasias. Essas viagens acendem o imaginário do homem europeu, pois estes sonhavam com o “paraíso e a fonte da eterna juventude”.
O paraíso aí se funda como o reino das possibilidades. Para Colombo e os outros navegadores que o seguiram, o Oriente seria a fonte para todo um imaginário fabuloso (Gondim, 2007). O impacto disso é tão forte no Ocidente que vamos encontrar essa associação ainda no século XVII, quando viajantes, por exemplo, procuravam o desconhecido e o fantástico na Amazônia.
A invenção da Amazônia se deu a partir de ideologias desde a escritura bíblica, fazendo um percurso pela Idade Média até os nossos dias. Acreditava-se que existia aqui na terra um paraíso, igual o descrito na Bíblia, que era o jardim do Éden, onde habitava Adão e Eva. Muitas foram às ideologias disseminadas e que acenderam o imaginário do homem europeu, pois este acreditava que esse “Paraíso ou El – dourado” existia e era uma cidade coberta de ouro e que possuía um rio onde suas águas conservassem a juventude eterna.
Cada imaginário se preenche com os limites de sua própria ansiedade. Ao tentar conquistar o desconhecido compreende-se uma oportunidade de domar o seu próprio imaginário. Mais uma vez, o detonador dessa aventura é uma especiaria. Ouvia-se falar muito no país da Canela; as mulheres guerreiras surgem como um misto de idealidade e sugestividade ao ambiente. Elas dão o toque feminino de medo do desconhecido. A relação com o mito grego das Amazonas obedece, portanto, a uma estratégia de nomeação.
Percebe-se que A Invenção da Amazônia se dá a partir das construções ideológica de um território, que é parte de um conjunto de mitos e fabulações que os europeus inventaram a América. Nesse caso, se a América foi inventada e não descoberta o que nos resta é simplesmente dar continuação a essa invenção, pois o próprio texto não nos mostra uma busca pela verdade e continua a falar em invenção.

Neide Gondim, em seu livro, construiu um painel dos primeiro viajantes cronistas, como também dos ficcionistas, que escreveram sobre a Amazônia até o século XX.  A grande maioria destes aventureiros deixou seu registro de entusiasmo, preconceito e fantasias. E suas histórias se proliferaram mundo afora, histórias que eram enfeitadas e moldadas de acordo com a imaginação de cada viajante que teve contato com esta terra.
'A invenção da Amazônia', que conta sobre como a Amazônia foi inventada e idealizada pelo europeu. A grande maioria desses aventureiros deixou o seu registro de entusiasmo, preconceito e fantasias que viam na Amazônia como o reino das possibilidades.O impacto disso é tão forte no Ocidente que vamos encontrar essa associação ainda no século XVII, quando viajantes,por exemplo, procuravam o desconhecido e o fantástico na Amazônia.

A invenção da Amazônia se deu a partir de ideologias desde a escritura bíblica, fazendo um percurso pela Idade Média até os nossos dias.v


sábado, 13 de setembro de 2014

Série livros sobre a Amazônia - NO CIRCO SEM TÉTO DA AMAZONIA: o drama social dos seringais - Ramayana de Chevalier -

Ramayana de Chevalier (1909-1972). Médico e escritor. Pai do economista Ronald de Chevalier (Roniquito) um dos criadores da Banda de Ipanema e da jornalista Scarlet Moon de Chevalier. Foi Secretario de Administração do Estado, no Governo de Gilberto Mestrinho (1961). Passou aquele ano em Manaus, depois de longo período no Rio de Janeiro. 


Ramayana de Chevalier, 1958
Além do exercício administrativo, escrevia ao jornal A Gazeta, do Senador Arthur Virgílio Filho, cassado em 1964.
Entre suas publicações, encontram-se inúmeros insultos contra o finado governador Plínio Coelho. Foi um cronista sobre assuntos diversos.  Foi um propagandista do governo Vargas. Nós, os "pedestres da eternidade", como dizia Ramayana de Chevalier, autor de No circo sem teto da Amazônia.

 Fonte: Adaptado do Blog do Coronel Roberto e outros



Ramayana  Candidato a Deputado (não foi eleito)


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NO CIRCO SEM TETO DA AMAZÔNIA



Ramayana de Chevalier. No Circo Sem Této da Amazônia. 1 ed. Editora Moderna. Rio de Janeiro.



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Ramayana de Chevalier. No Circo sem teto da Amazônia. 2 ed.  Valer. Estudo Critico de Marcos Frederico Krüger. Valer. Manaus. 2001.







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CARTA DE CHEVALIER PARA JORGE TUFIC

Fonte: Jorge Tufic - Tufic.blogspot


Rio, 9 de abril de 1967

Meu grandiquerido [Jorge] Tufic


A saudade é como a luz, não morre, todos os dias se renova. Vocês do Clube da Madrugada representam, para mim, um retrocesso no tempo, uma viagem amável ao País da Emilia. Poetas, o são como eu aspiro e sinto: vivos, aluando de vida, tontos de luz como os pássaros livres da nossa terra. Gostaria de viver com vocês. Já me distancio na eclética do destino, procurando rosas no meu deserto, mas amando ao Amazonas com todas as fibras da minha paixão.


Nos meus dias de solitude, diante desta Copacabana sofrida pelos cortes de luz recebo sempre dois pedaços do Clube da Madrugada: Antísthenes e Penafort. Poetas, romancistas, talentos de cepa fina, caboclos na mais larga acepção do vocábulo. Trazem-me notícias, livros, composições espirituais da planície. São vozes da floresta, rumos perdidos da selva nesta flumilândia de arranha-céus.


Fala-me de você, de sua casa admirável debruçada sobre o igarapé como a de Pearl Buck em Hong Kong, talhada em madeira de lei, nossas eternas madeiras amazônicas, magníficas perfeições da nossa arquitetura neolítica, olhando as águas como presentes de Deus as almas sequiosas de bondade. Lembro-me de soneto, “Possível Soneto a Dalva”, obra prima da cinzeladura glebária, notável conquista de um talento que representa a nossa raça, a nossa gente, o nosso futuro misturando sírios, franceses, nórdicos, mestiços no imenso caldeirão da Hiléia, mãe santíssima da nossa desventurada sensibilidade. “O resto é uma cidade e nela o meu orgulho”.

Sim, o teu e o de todos esses Farias, Elsons, Bacelares, Américos, Alencares, Ruas e ensaístas como Aluísio Sampaio, Engrácio, Batista, João Bosco Evangelista, um economista como Saul Benchimol, um Jefferson Péres, artistas ao jeito de Afrânio Castro, Getulio Alho, Álvaro Páscoa, Moacir Andrade, Assayag, um ficcionista como Benjamin Sanches, e o miniaturista admirável que é Óscar Ramos, exilado na Espanha dentro da luz e da cor.


E me recordo dessas noites de luar sobre o rio, onde, quando em Manaus, “o fogo brando como Dalva em meu peito, a consumia”. Tu, como um Alfonsus de Guimarães, que assinaria esse soneto a Dalva, namorando uma lua no céu e outra lua no rio, momento eterno de translumbramento, como as genialidades pictóricas desses artistas manauaras ou transplantados para lá, doces Messias da última mensagem, amando desmesuradamente ao Amazonas, frutos de seus esgalhos pendentes, flores dos seus lagos imaturos, nelumbos dos seus igapós dormentes.


Gostei de teus livros, amei os teus poemas. Silvei como as dobras da espessura, buscando imagens e belezas. Arfei como os fatigados manatins dos canaranais, respirando saudades. O capitalismo afastou-me das rotas distantes, impossibilita-me uma visita à minha terra. Há uma pousada a minha disposição. A casa de Stenio Neves, na praça da Saudade, que me foi oferecida, com o ar condicionado e outras vantagens modernas. Um dia saltarei por ai, de acangatara, ou só com a minha velha tara, rosnando de amor pelo Amazonas, que me atormenta de paixão como um eczema sentimental.

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Anúncio em A Tarde, 1939

Morrerei, Tufic, é o destino. Só me sentirei feliz se o Clube da Madrugada, coletando-me as cinzas, junto com flores de mamorana, descer, uma noite de plenilúnio o rio Negro, despejando-me os espólios na foz, rumo ao mar-oceano... Nessas pedras que andei, hoje asfalto, por essas casas humildes que me convidam ao sonho impossível para os que não poderão jamais compreendê-la.

Vou parar. Meu caminho é como o das lagartas volantes, não marca o chão. Tu, que tens na lama a vibração das palmeiras dos oásis e o fervor pelo destino dos pais, tu que és símbolo do bom filho, do bom irmão e do bom companheiro, tu que és poeta no ar que respiras e na limpidez aos teus momentos interiores, nos quais festejas a Morte, lembra-te do teu velho amigo, do Ramayana que é uma expressão da Amazônia onde quer que se encontre, um traço de Amor entre a terra e o infinitivo, um caboclo doente e triste, cujo sorriso é uma lua à superfície de um lago tranquilo.


Abraço-te a ti e aos nossos irmãos do Clube da Madrugada. Uma tâmara para o teu coração. Um cupuaçu para os nossos paladares boêmios. Meu endereço vai abaixo. Gostaria de entreter com vocês um entendimento de beira de cais. Receber jornais de Manaus, escrever para eles, escutar de longe as novidades da mais bela das cidades do Brasil, junto com a Bahia, porque autênticas.

Como na Roma antiga, direi de toga suspensa e num gesto digno: Vale!


Do teu ex-conde

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O CIRCO SEM TETO DA AMAZÔNIA
José Ribamar Bessa Freire
07/11/2010 - Diário do Amazonas

Esse amazonense se tornou, anos depois, sogro do cantor Lulu Santos. Seu nome: Walmiki Ramayana e Sousa de Chevalier, pai da jornalista Scarlet Moon. Formou-se em medicina na Bahia, mas nunca receitou uma aspirina. O que gostava mesmo era de escrever. Publicou livros, entre os quais Circo Sem Teto da Amazônia. Conquistou vaga de ‘imortal local’ na Academia Amazonense de Letras. Viveu muitos anos em Manaus até se mudar de mala e cuia para o Rio, onde assessorou o ministro do Interior, no final da década de 1960. Foi aí que o conheci.
Na época, eu era repórter da ASAPRESS, agência de notícias que distribuía matérias a jornais de todas as regiões e que havia sido arrendada pela CNBB – Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. Decidi entrevistar o escritor sobre um tema que ainda hoje desperta o interesse da mídia e povoa o imaginário dos leitores: a cobiça internacional da Amazônia.
Havia uma onda nacionalistóide se espalhando pelo país. A ditadura militar, por um lado, entregava a economia do Brasil ao capital estrangeiro, sob a batuta do ministro Roberto Campos, apelidado de Bob Fields pelo humorista Stanislaw Ponte Preta. Por outro, jogava para a plateia, fazendo discursos do tipo “A Amazônia é nossa e ninguém tasca”. O ministro do interior, general Albuquerque Lima, chefe de Ramayana, era líder dessa corrente nacionalista.
- A União Soviética e os Estados Unidos planejam anexar a Amazônia – declarou o futuro sogro de Lulu Santos, nacionalista roxo. Espalhafatoso e retórico, ele chamou o rio Amazonas de “impatriótico”, porque suas águas cavam e engolem terras que são carregadas pelo Gulf Stream para a Flórida. Denunciou os padres estrangeiros que estariam montando uma extensa rede de espionagem em Manaus e no Solimões onde atuavam.  E sentenciou numa frase de efeito:
- O rio Amazonas e os padres americanos vão levar Manaus de bubuia para Miami.
A honra de bubuia
MANAUS VAI DE BUBUIA PARA MIAMI, berrou a manchete de O Jornal, da empresa Archer Pinto. A matéria publicada em diversos jornais do Brasil foi distribuída, no Amazonas, pelo agente local da Asapress, Domingos Sávio Ramos de Lima. Ele e eu, ex-alunos redentoristas, fomos espinafrados pelo arcebispo de Manaus, D. João de Souza Lima, no programa radiofônico A Voz do Pastor, que nos acusou de ferir a honra dos padres, como se nós fôssemos os autores da frase e não Ramayana.
Contei essa e outras histórias na última sexta feira ao Laboratório de História da Imprensa no Amazonas (LHIA) da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). De passagem por Manaus, dei um depoimento tentando avaliar as relações das empresas jornalísticas com as diferentes instâncias do Poder, com os leitores, as fontes e os fatos, com a verdade e com a honra de quem se sente ferido pela mídia.
Lembrei, então, a pergunta formulada no dia anterior por meu amigo Paulo Figueiredo, advogado e jornalista, que viveu esses anos conturbados da política. Ele queria saber se fui processado por ferir a honra de alguém. Nunca ataquei a honra de quem quer que seja durante mais de 40 anos de exercício do jornalismo. Critiquei Deus e o mundo – mais o mundo do que Deus, embora de raspão tenha atingido alguns de seus representantes na terra – mas sempre a conduta pública, nunca a privada.
A honra de alguém só pode ser definida dentro do âmbito da vida privada, naquela esfera da intimidade dos relacionamentos familiares, maritais, pessoais, não profissionais. Algumas vezes, os jornais invadem esse território, mas essa nunca foi a minha praia. Um exemplo escabroso foi a polêmica entre o vereador Fábio Lucena e Andrade Neto, dono de A Notícia, que deixou a sociedade amazonense estarrecida. Baixaria pura!
No depoimento dado ao Laboratório de História da Imprensa, fui indagado sobre a coluna Taquiprati. As críticas contundentes, com humor, às vezes com deboche, às vezes ácidas, aqui feitas, se referem à conduta PÚBLICA de quem exerce um cargo PÚBLICO. Nunca ao comportamento privado, particular. Esse, não me interessa.
Quem exerce cargo público, num sistema democrático, está sujeito à avaliação, porque é remunerado com o dinheiro do contribuinte. Isso faz parte do exercício da cidadania. Um jornalista, que pretende ser uma espécie de autofalante para quem não é ouvido e se sente injustiçado, não pode calar. Se cada vez que a crítica à conduta pública de um agente público for considerada, espertamente, como atentado à honra, o Judiciário ficará entulhado de milhões de processos e não existirá imprensa livre. Quem assim obstrui a liberdade de imprensa deve ser penalizado. 

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 Scarlet Moon de Chevalier, lançou em 2006, a biografia do seu irmão, o economista Ronald Russel Wallace de Chevalier (1936-1986 ), o Roniquito: 'Dr. Roni e Mr Quito - A vida do amado e temido boêmio de Ipanema' (Ediouro)".
Scarlet Moon de Chevalier. Dr. Roni e Mr Quito.A vida do Amado e temido Boemio de Ipanema. 2006

Esta história Luiz Carlos Miéle incluiu no repertório dos seus shows.

Roniquito estava no Antonio's, quando chegou uma freqüentadora toda bem-vestida.
Ele perguntou de onde ela estava vindo assim tão chique.
A moça respondeu toda feliz:
- Do Theatro Municipal - e emendou: - Você gosta de Béjart?
Roniquito respondeu:
- Não, eu prefiro Foudet.
A moça ficou rubra de indignação:
- Que grossura! Estou falando do coreógrafo Maurice Béhart!
E Roniquito na maior candura:
- E eu do bailarino Pierre Foudet!
Evidentemente só ele conhecia este profissional da dança.
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Roniquito de Chevalier

Ruy Castro, retirado do livro Ela é Carioca

1936 - 83. Economista e inventor da palavra aspone.
Ele às vezes entrava num botequim e se anunciava: "Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns minutos...Roniquito!"
Mesas estremeciam. Todos sabiam que aquele rapaz bem-nascido, bem vestido, bem-falante e de profissão economista, que acabara de entrar recitando Shakespeare ou Baudelaire, iria cumprir a ameaça. Dali a três ou quatro uísques (não havia uma progressão, era de repente), ele se aproximaria de alguém (o queixo proeminente quase espetando a cara do outro) e diria alguma coisa tão ofensiva que faria o outro espumar e partir para assassiná-lo. Talvez porque o que ele dissesse fosse a verdade.
Era tão corajoso quanto frágil fisicamente. Escapou centenas de vezes de ser desmembrado ou de ter os ossos da face transformados em paçoca por punhos poderosos. Muitas vezes foi salvo pelos amigos, que brigavam por ele. Em outras, apanhou de verdade e agüentou firme. Conta-se que, numa dessas, o sujeito que o espancava perguntou-lhe:"Chega ou quer mais?". E Roniquito, no chão, com o sapato do brutamontes sobre seu pescoço, ainda conseguiu olhar para cima e articular: "Cansou, filho da puta?".
Roniquito talvez tenha sido o sujeito mais sem censura da história de Ipanema. Dizia o que pensava para qualquer um, não importava o cargo, a idade, a cor, o sexo, ou o tamanho da pessoa. Umas dessas foi o cronista Antonio Maria, que, sozinho, seria capaz de massacrar vinte Roniquitos. Numa discussão no Bottle's Bar, no Beco das Garrafas, em 1962, Roniquito provocou Maria ao duvidar de sua competência como homem de televisão. Para ele, homem de televisão era seu amigo Walter Clark, então diretor comercial da TV Rio e que estava calado na mesa, temendo o pior. Roniquito ofendia Maria e pedia o testemunho do boêmio dentista Jorge Arthur Graça, o "Sirica", também sentado com eles. Maria aguentou enquanto pôde, até que Roniquito soltou a frase final: "Anbtonio Maria, você foi parido por um ânus!". Ao ouvir isso, Maria viu vermelho e atirou-se enfurecido sobre Roniquito, Walter e quem mais estivesse por ali. A muito custo, foi contido por "Sirica" e mais uns dez.
Walter Clark e Roniquito eram amigos de adolescência em Ipanema. Conheceram-se no Colégio Rio de Janeiro, depois de uma prova de redação na qual Walter, recém-chegado de São Paulo, teria tirado 10. A primeira frase de Roniquito para Walter foi: "Você é o garoto que tirou 10? Você me parece bem medíocre...". Nunca mais se separaram. Nos anos 60 Walter contratou Roniquito para trabalhar na administração da TV Rio e toureou os insultos que Roniquito disparava contra o próprio chefe, Péricles do Amaral. Quando Walter saiu para fazer a TV Globo, em 1965, levou Roniquito com ele. Com o estrondoso sucesso da Globo a partir de 1970, a máquina começou a andar sozinha e Roniquito e o próprio Walter pareceram ficar sem função. Dizia-se que a única utilidade de Roniquito era beber uísque com Walter durante o expediente - em xícaras de chá, para dar menos na vista. Foi quando, ao ser perguntado sobre o que fazia na Globo, Roniquito respondeu com a expressão depois popularizada por Carlinhos de Oliveira: "Sou aspone. As-po-ne. Assessor de porra nenhuma". A palavra, consagrada nacionalmente, ainda não chegou ao Aurélio.
Mas não era bem assim. Na própria Globo, sua atuação esteve longe de ser a de um aspone. Numa época de crise, por exemplo, ajudara a equacionar uma pesada dívida da Globo para com a Receita Federal. Era um economista brilhante, ex-aluno de Octávio Gouveia de Bulhões, Roberto Campos e Mario Henrique Simonsen e fora o orador da sua turma (da qual fazia parte Maria da Conceição Tavares). Em fins dos anos 50, saíra da faculdade para um emprego na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal). Simonsen, por sinal, vivia consultando-o sobre questões econômicas, antes, durante e depois de ser ministro do Planejamento do governo Geisel - e sendo derrotado por ele no xadrez. Sóbrio, Roniquito trabalhava também no Ministério da Fazenda, escrevia uma coluna semanal no Correio Braziliense e dava palestras em universidades e cursos de pós-graduação.
E, sóbrio ou ébrio, passava a impressão de ser íntimo de todos os livros do mundo: falava inglês e francês, sabia poetas inteiros de cor e conhecia muita literatura, sendo apaixonado por William Faukner. Suas estantes era impecáveis, com os livros organizados por assunto. todos sempre à mão. Em música era capaz de assobiar até os clássicos. Parte dessa erudição lhe vinha de família: seu pai, o amazonense Walmik Ramayana de Chevalier, era poeta e médico (o Ramayana do nome era uma referência ao célebre poema hindú). Ramayana carimbou seus filhos com nomes bonitos, mas, para brasileiros, estrambóticos: Roniquito era Ronald Wallace Carlyle de Chevalier; dois de seus irmãos eram Stanley Emerson Carlyle de Chevalier e, claro, Scarlet Moon de Chevalier.
Por intermédio de Ramayana, Roniquito ainda usava calças curtas quando se sentou para beber pela primeira vez com Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos. Ou seja, já começou entre os profissionais. Na mesma época, para exibir Roniquito, Ramayana mandou-o imitar Rui Barbosa para Lucio Cardoso. Roniquito imitou Rui à perfeição, com todos os pronomes no lugar. Lucio ficou fascinado: "Nunca vi um menino de dez anos beber tão bem!". Muitos anos depois, Lucio deu-lhe para ler os originais de seu romance Crônica da casa assassinada e pediu-lhe sua opinião. Mas, quando Lúcio o enxotou de uma festa em seu apartamento por ele estar zombando do namoro secreto de Paulinho Mendes Campos com Clarice Lispector, Roniquito foi para debaixo da janela de Lucio e começou a gritar o insulto que, na sua opinião mais o ofenderia: "Faukner do Méier! Faukner do Méier!".
A relação de Roniquito com os escritores era cruel. Ao cruzar com Fernando Sabino num restaurante, Roniquito perguntou-lhe: "Fernando Sabino, quem escreve melhor, você ou Nelson Rodrigues?". Fernando gaguejou: "Bem...Nelson Rodrigues, é claro". Mas Roniquito fulminou: "E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?". Fez pior com o suave Antonio Callado, a quem perguntou se já tinha lido Faulkner. Callado disse que, evidentemente, já tinha lido. "Bem, se já leu Falkner, você sabe que você é um bosta", disse Roniquito.
Se Roniquito se limitasse a desfeitear os amigos, seria apenas um bebum inconveniente. Mas ele também não tinha a menor cerimõnia com o poder, nem mesmo quando esse era o truculento poder militar. Certa vez, numa recepção na TV Globo, Roniquito foi apresentado a um general. Depois de certificar-se de que ele nunca lera Machado de Assis, perguntou-lhe se pelo menos entendia de música. O general hesitou e Roniquito exemplificou:"Nem essa?". E, com a voz e os dedos imitando uma corneta, solou o toque da alvorada. Em outra visita de autoridades à Globo, Roniquito preguntou a Pratini de Moraes, ministro dos Transportes do governo Médici, se ele sabia o tamanho de um vergalhão. O ministro vacilou e Roniquito emendou: "Pois devia saber, porque o governo está enfiando um vergalhão no rabo do povo". De outra feita, no governo Geisel, quando Roniquito conversava com o seu amigo, o ministro da Previdência Luiz Gonzaga do Nascimento Silva, outro ministro, Severo Gomes, este da Indústria e Comércio e dono dos cobertores Parahyba, tentou se meter. Roniquito cortou-o: "Não estou falando com fabricante de lençóis".
Em todas essas ocasiões, Roniquito foi salvo do opróbio na Globo porque era adorado por Walter Clark e Boni. Chegou a ser posto de quarentena diversas vezes, mas a punição nunca era mais do que simbólica. De certa forma, Roniquito era o que Walter, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção - Walter era o contrário.
Mas a maior sem-cerimômia de Roniquito para com o poder foi em 1967 e envolveu o marechal Costa e Silva, já presidente. Segundo a história muito bem contada por Ferdy Carneiro, Roniquito estava ciceroneando um figurão americano convidado do governo, a pedido de Nascimento Silva. Naquela manhã ele levara o visitante a almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna. Antes de irem para a mesa, resolveram reforçar-se no bar com alguns uísques - muitos uísques, porque o americano não enjeitava o serviço. Por coincidência, na mesma hora, Costa e Silva também estava no MAM para almoçar. A comitiva presidencial, sem as normas de segurança que depois se tornariam comuns, passou por Roniquito no momento em que este catava seu isqueiro no paletó para acender um cigarro. Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: "O senhor tem fogo?". Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele. O americano, sem entender o que se passava e já incapaz de fazer um quatro, se a isso fosse solicitado, balbuciou qualquer coisa como "Whatthegoddamfuckdoyouthinkyouredoin´" e foi também abotoado.
Os dois foram levados para o 3 Distrito, na rua Santa Luzia, por desacato à autoridade. Diante do delegado, o americano esbravejava com voz pastosa:"I'm an American shitizen! Call the embashy!". O delegado perguntou: "Quê que o gringo tá falando?". "Ele tá dizendo que a polícia no Brasil é uma merda" traduziu Roniquito. " Ah, é? Pois ele vai ver o que é merda!", bramiu o delegado. O americano pediu para usar o telefone. Roniquito traduziu: "Ele está dizendo que no Brasil ninguém respeita os direitos humanos". "Direitos humanos é o cacete! Ele vai entrar no pau!", ganiu o delegado. O americano perguntou a Roniquito por que o delegado estava tão brabo. Roniquito sussurrou para o delegado: " Agora ele está dizendo que o Brasil é uma ditadura facista". Por sorte, quando estava prestes a ser apresentado ao pau-de-arara, o americano conseguiu mostrar um documento com o emblema do governo americano. Foi dado o telefonema e, em poucos minutos, chegaram as tropas da embaixada e do Itamaraty para libertar Roniquito e o gringo. Mas, por causa de Roniquito, conclui Ferdy, por pouco não se declarou uma guerra entre o Brasil e os Estados Unidos - tendo como pivô um palito de fósforo. Não admira que Roniquito não tenha sido levado a sério quando se ofereceu para ser trocado pelo embaixador Burke Elbrick, sequestrado em 1970.
Livre dos espíritos, Roniquito era um gentleman. Beijava as mãos das senhoras e encantava-as com sua inteligência e educação. Mas era bom não confiar. A poção que o fazia passar de Dr. Jekyll a Mr. Hyde (ou de Dr. Roni a Mr.Quito, segundo Marcos de Vasconcelos) vinha em toda espécie de garrafas. Com uma única palavra ele seria capaz de provocar um terremoto. Uma elegante senhora do Flamengo, que só conhecia o seu lado fino, convidou-o para um jantar em sua casa. Roniquito comportou-se bem no jantar, mas bebeu vinho demais, desmaiou sobre o prato e foi levado roncando para um sofá. Terminado o jantar, um dos convidados propôs uma brincadeira então na moda, "A palavra é...". No meio do jogo, Roniquito deu sinais de que estava acordando. A dona da casa achando que ele queria participar da brincadeira, foi até o sofá, de mãos postas e com um sorriso de beatitude: "Roniquito, a palavra é...". E Roniquito, meio zonzo de sono:"Ca-ra-lho". Naturalmente, foi expulso pelo filho da dona da casa.
Quem o conhecesse mal, diria que Roniquito tinha um temperamento bélico. Mas era a sua falta de paciência para com os enganadores que o levava a ser radical. Poucos meses depois do golpe de 1964, intelectuais reunidos no Teatro Santa Rosa promoviam um debate emocionado e anódino sobre os "caminhos da democracia no Brasil". Propunham "estratégias de ação". Foi quando se ouviu, do fundo da platéia, sua voz característica: "Muito bem. E quem vai fornecer as metralhadoras?". O debate acabou ali.
Roniquito foi atropelado em dezembro de 1981, em frente ao Antonio's. Um fusca o acertou, quebrou-lhe as duas pernas, jogou-o longe e fugiu sem socorrê-lo. Um ônibus que vinha atrás viu o acidente e parou. O motorista recolheu Roniquito, colocou-o no ônibus e levou-o para o Miguel Couto. Histórias surgiram até em torno desse atropelamento. Segundo uma delas, ao passar voando defronte da varanda do Antonio's e ao ver o ar assustado dos amigos, Roniquito teria perguntado: "O que foi, porra? Nunca viram o Super-Homem?".
Na verdade, o atropelamento lhe seria fatal. Roniquito quebrou as pernas em vários lugares, teve seqüelas graves e foi submetido a seis operações durante o ano de 1982. Como todo filho de médico, gostava de se automedicar e passou a tomar uma farmácia de remédios. Mas não parou de beber - mesmo de bengala e pé engessado, chegou a ir algumas vezes à Plataforma, fazendo piada com a própria desgraça. Roniquito também foi visto em restaurantes tomando um líquido que parecia café. Ao ser perguntado, "Tomando café, Roniquito?", respondeu: "Estou. Irish cofee" (café com uísque). Mas era também asmático e o uso da bombinha, misturado a bebida e remédios, provocou-lhe uma insuficiência cardíaca. Quando teve o enfarte fatal, em janeiro de 1983, estava sozinho em seu apartamento no Posto 6. Só o encontraram horas depois. Foi enterrado com o pé no gesso e de olhos abertos.
O anúncio da sua morte no Jornal do Brasil era uma enciclopédia da vida brasileira. Tinha de ministros de Estado a garçons de botequim. Carlinhos Oliveira disse a seu respeito: "Ninguém podia ser patife perto dele. Ninguém ousava". E Paulo Francis escreveu um comovente obituário na Folha de S. Paulo:"Roniquito fazia o que não temos coragem de fazer - virar a mesa contra os horrores brasileiros. Mas, o leitor dirá, por que então não escrever jornalismo polêmico ou até ficção? É uma boa pergunta. Mas talvez a resposta esteja no Brasil. Nosso horror é de uma tal ordem de vulgaridade que uma resposta vulgar de baderneiro talvez seja mais adequada do que 'análises' ou'contramodelos'. Roniquito manteve uma juventude, uma infância de poeta: protestava em pessoa, pondo a vida em risco tantas vezes, pela gente que desafiava".

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"O MONSTRO DO BOTEQUIM - Marcelo Bortoloti


Tudo ia bem naquela mesa do bar Antônio’s, na antiga Ipanema dos anos 60, até Ronald de Chevalier, o Roniquito, começar a se estranhar com o amigo e cartunista Otelo Caçador.


Briga de bêbados, e como tal, sem motivo aparente nem conseqüências para o dia seguinte. A gota d’água foi quando Roniquito chamou o colega de imbecil. O outro partiu para a agressão. “Os dois caíram no chão, mas era uma briga em câmera lenta, um tédio”, lembra o jornalista e escritor Fausto Wolff, testemunha ocular do ocorrido. Otelo, mais forte, levou a melhor e encheu o adversário de pancadas. Subiu em cima dele, e com o pé na sua garganta, perguntou: “E aí, chega ou quer mais?”. E Roniquito, atrevido: “Mas é claro que chega seu imbecil”.

Era a insolência típica desta figura mitológica que morreu tragicamente em 1983, deixando para trás uma fama de bêbado selvagem, dono de um ‘temperamento bélico’ como descreveu Ruy Castro, e que ofendia a todos pelo simples prazer da discórdia.

Economista e intelectual, Roniquito não deixou nenhuma obra escrita, a não ser uma série de extravagâncias contadas e recontadas pelos cronistas da época. E justamente por ter sido o bêbado que foi, ele ganhou no mês passado uma biografia, escrita pela irmã, Scarlet Moon de Chevalier, jornalista e ex-mulher do cantor Lulu Santos.

“Dr. Roni e Mr. Quito” (Editora Ediouro), traz no título uma piada do cronista Carlinhos de Oliveira, que definia Roniquito como uma versão nacional de Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do livro “O Médico e o Monstro” de Robert Stevenson. Sóbrio era uma figura doce e tímida, bêbado virava um crítico feroz, um infame, ou simplesmente um cara engraçado, dependendo do ponto de vista.

Ele próprio tinha consciência de suas duas metades. Às vezes, ao entrar num botequim, ainda de boca seca, se anunciava: “Senhoras e senhores, aqui Ronald de Chevalier. Dentro de alguns instantes... Roniquito”. Bastavam algumas doses de uísque.

Certa vez, altas da madrugada, foi o segundo que se virou para o amigo Fernando Sabino, que também bebia no bar Antônio’s: “Ô Sabino, quem é melhor, você ou o Nelson Rodrigues?”. O escritor, modestamente, respondeu que era o Nelson, claro. E Roniquito: “E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?”

Nasce um boêmio

Carioca por adoção, Ronald Russel Wallace de Chevalier nasceu em junho de 1937, em Manaus. Filho de médico ilustre, veio com a família logo cedo para o Rio. Os pais tinham dinheiro suficiente para colocá-lo nos melhores colégios, e ele foi amigo de infância de Walter Clark, Jô Soares e Ivan Lessa.

Ronald possuía uma inteligência matemática, decidiu cursar economia. Foi orador da turma e um dos pupilos de Mário Henrique Simonsen, o antigo Ministro da Fazenda. Não demorou muito para demonstrar sua habilidade para o álcool e a balbúrdia. O primeiro pileque foi aos 10 anos de idade, um verdadeiro prodígio.

Logo que Ferreira Gullar chegou ao Rio de Janeiro, por volta de 1952, o poeta foi a um debate sobre arte contemporânea. Um dos palestrantes, um paraguaio, falava de seu interesse pelo aspecto metafísico da arte. Neste momento um jovem magro, do fundo do auditório, pediu um aparte. O palestrante concedeu, e ouviu o seguinte: “Eu só queria dizer que a única coisa metafísica que eu conheço é o cu”.

O paraguaio perdeu a fala. “Ele foi tirado da sala, carregado por dois seguranças, e continuou gritando ‘é o cu é o cu’ até a saída. Eu perguntei quem era aquele, e me responderam ‘é o Roniquito, ele vive criando confusão em todo canto’”, conta Gullar, que mais tarde viria a ser amigo da fera. Foi uma das primeiras manifestações do tipo bravio, que como se vê, não tinha critérios.

Piada de salão

Baixinho e franzino, Roniquito possuía coragem demais para seu tamanho, apanhava com regularidade. Sobreviveu tanto tempo pois nunca saia do circuito Ipanema-Leblon, onde era conhecido. Quando chegava em um bar lotado, onde não havia nenhum amigo, costumava dizer: “Este lugar está cheio de ninguém”. Surgia alinhado e dali a pouco estava completamente descomposto, com o enorme queixo apontado para o alto, marca registrada do seu atrevimento.

“Ele chegava a ser inconveniente, mas no fundo era um gozador”, defende Ferreira Gullar. O cartunista Jaguar, 74 anos, é outro sobrevivente daquela brava geração etílica. “Roniquito era um suicida”, define. “Quando não tinha ninguém para esculhambar, esculhambava o copo”, exagera. Certa vez estavam os dois sentados no bar Degrau, depois de extensa via-sacra pelos botecos da Zona Sul, quando se aproxima da mesa uma madame falando maravilhas de um espetáculo que acabara de assistir, do coreógrafo Maurice Béjart. “Eu amo Béjart, ele é divino”, dizia. Roniquito, possuído, desbancou a granfina: “Eu acho Béjart uma merda, eu gosto é de Fudet”.

Muitas histórias que passaram de boca em boca ganharam mais cores que veracidade. O ator e cineasta Hugo Carvana, também integrante do bando, homenageou Roniquito no seu filme “Bar Esperança”, no papel de um bêbado, é óbvio, vivido pelo ator Antônio Pedro. “A gente nunca sabe quais histórias são verdadeiras. Roniquito era um personagem folclórico, e o personagem às vezes é maior que a pessoa”, diz.

Apesar de azedo quando embriagado, o boêmio era dono de grande talento para a esculhambação, e estava sempre cercado de amigos. Por ocasião de sua morte, Paulo Francis publicou um artigo na “Folha de São Paulo”, contando a única vez em que fora destratado por ele. Francis estava numa mesa de bar com amigos, e elogiou o filme “Teorema” do cineasta Pier Paolo Pasolini. Quando se levantou para ir ao banheiro, Roniquito o segurou pelo braço, com essa: “Custou, mas confessou o homossexualismo. Hem?”. Claro que apesar de toda a graça, foi com justiça considerado por muita gente como um tipo insuportável.

O assessor

Ao lado de toda esta atividade boêmia havia também uma produção intelectual relativamente intensa. Ronald de Chevalier era um erudito, altamente versado em poesia e música clássica, e chegou a cometer alguns sonetos. Como economista, trabalhou na Comissão Econômica para a América Latina, no antigo BNH, passou pela Rede Globo e depois pelo Ministério da Fazenda.

Na TV começou em 1969, quando a Globo se despontava como uma potência. Ronald foi contratado pelo amigo Walter Clark, chefão da emissora na época, embora seu cargo nunca tenha ficado muito claro. Foi ele quem inventou a expressão ‘aspone’, que mais tarde entrou no Dicionário Houaiss: "Indivíduo que exerce um cargo sem função real ou útil". Na sua origem, ‘aspone’ é redução de assessor de porra nenhuma, como Roniquito se definia.

Claro que era um exagero, só para não perder a piada. A cantora Nana Caymmi, amiga inseparável, defende o figurão. “Ele era um homem de idéias brilhantes, e ajudou muito o Walter Clark na época. Naquele clã da Globo não ficava nenhum burro”, decreta. Ruy Castro tem outra versão: “De certa forma, Roniquito era o que Walter Clark, com todo o seu poder, gostaria de ser: fino de berço e grosso por opção. Walter era o contrário”.

Scarlet Moon entrevistou cerca de 50 pessoas entre amigos e conhecidos da época para compor a biografia. Ela fala da infância feliz, dos colegas de escola, dos casamentos e da difícil convivência com o alcoolismo. Por conta do temperamento pirotécnico, a verdade é que o boêmio nunca foi muito bom com as mulheres. Ainda assim, foi casado duas vezes e teve três filhos. “Roniquito sabia que não era um sujeito muito bonito, e isto o irritava um pouco”, sugere Fausto Wolff, que dividiu um apartamento com ele em Ipanema. Nana Caymmi tem uma avaliação mais branda: “Eu era uma admiradora, ficava ao lado dele fascinada com sua inteligência e com as coisas que ele dizia”, conta. Claro que de noite, já com a cara cheia, Roniquito surgia no Chico’s bar, onde Nana se apresentava, dizendo que aquilo tudo era uma porcaria e que o bom mesmo era Beethoven.

Algumas cenas da biografia são dramáticas. Naquela época de sexo, drogas e bossa nova, Roniquito se meteu com cocaína. Certo dia, após um escândalo sem propósito e um flagrante mal escondido, acabou comprometendo sua irmã, que foi presa por porte da droga. O bêbado ainda foi até a delegacia dizer que o culpado era ele, mas não adiantou. Scarlet passou três meses e meio encarcerada. Barra pesadíssima. Taí um vexame difícil de esquecer.

A última do Roniquito

A fase áurea da sua vida boêmia se passou em plena ditadura militar. Ele nunca foi preso porque circulava bem nas rodas de poderosos, embora, dizem, destratasse até mesmo os oficiais. Em seu livro “Ela é Carioca”, Ruy Castro conta que nos idos de 67, Roniquito estava bêbado no Museu de Arte Moderna, quando entrou o general Costa e Silva e seu séqüito para almoçar. A comitiva presidencial passou justamente na hora em que ele procurava um isqueiro no paletó para acender seu cigarro. Segue o Ruy: “Com o cigarro no canto da boca, Roniquito viu o presidente. Avançou, cravou o queixo nas medalhas de Costa e Silva e perguntou: 'O senhor tem fogo?’. Os seguranças, como que subitamente acordados de um rigor mortis, pularam sobre ele”. O tipo foi abotoado mas não chegou a ir em cana.

Quando aprontava além da conta, Jaguar lembra que ele era expulso do Antônio’s por um tempo, e ficava de castigo bebendo no boteco vizinho. Numa destas, embriagado e sozinho, foi atravessar a rua e acabou pego por um fusca em alta velocidade. O motorista foi embora sem prestar socorro. Um ônibus que vinha atrás o levou para o hospital Miguel Couto, onde foi operado para reconstituir o rosto, a perna e outros pedaços do corpo. Em frangalhos na maca, teve fôlego apenas para pedir uma vodka para a enfermeira.

Depois disto Roniquito nunca mais foi o mesmo. Vivia de muletas, se automedicava e continuou bebendo. Morreu em janeiro de 83, com 45 anos de idade. “Muito moço”, concordaram os jornais da época. Podia ter sido um intelectual de sucesso. Não foi, vivia de porre, mas ainda assim gozou da amizade de muita gente com talento e poder, e sempre que possível jogou merda no ventilador. Um herói. “É um mistério, morremos de saudade de um sujeito que vivia nos esculhambando”, arremata Jaguar". 

(http://www.olobo.net/index.php?pg=colunistas&id=474)