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domingo, 29 de julho de 2012

GRACILIANO RAMOS - ESCRITOR ALAGOANO


Graciliano Ramos de Oliveira (Quebrangulo, 27 de outubro de 1892Rio de Janeiro, 20 de março de 1953) foi um romancista, cronista, contista, jornalista, político e memorialista brasileiro do século XX.


Biografia

Graciliano Ramos viveu os primeiros anos em diversas cidades do Nordeste brasileiro. Terminando o segundo grau em Maceió, seguiu para o Rio de Janeiro, onde passou um tempo trabalhando como jornalista. Voltou para o Nordeste em setembro de 1915, fixando-se junto ao pai, que era comerciante em Palmeira dos Índios, Alagoas. Neste mesmo ano casou-se com Maria Augusta de Barros, que morreu em 1920, deixando-lhe quatro filhos.
Foi eleito prefeito de Palmeira dos Índios em 1927, tomando posse no ano seguinte. Ficou no cargo por dois anos, renunciando a 10 de abril de 1930.[2] Segundo uma das auto-descrições, "(...) Quando prefeito de uma cidade do interior, soltava os presos para construírem estradas." Os relatórios da prefeitura que escreveu nesse período chamaram a atenção de Augusto Frederico Schmidt, editor carioca que o animou a publicar Caetés (1933).
Entre 1930 e 1936 viveu em Maceió, trabalhando como diretor da Imprensa Oficial, professor e diretor da Instrução Pública do estado. Em 1934 havia publicado São Bernardo, e quando se preparava para publicar o próximo livro, foi preso em decorrência do pânico insuflado por Getúlio Vargas após a Intentona Comunista de 1935. Com ajuda de amigos, entre os quais José Lins do Rego, consegue publicar Angústia (1936), considerada por muitos críticos como sua melhor obra.
Em 1938 publicou Vidas Secas. Em seguida estabeleceu-se no Rio de Janeiro, como inspetor federal de ensino. Em 1945 ingressou no antigo Partido Comunista do Brasil - PCB  nos anos seguintes, realizaria algumas viagens a países europeus com a segunda esposa, Heloísa Medeiros Ramos, retratadas no livro Viagem (1954).  Ainda em 1945, publicou Infância, relato autobiográfico.
Adoeceu gravemente em 1952. No começo de 1953 foi internado, mas acabou falecendo em 20 de março de 1953, aos 60 anos, vítima de câncer do pulmão.

FONTE: Adpatado de WIKIPEDIA - http://pt.wikipedia.org/wiki/Graciliano_Ramos

BIOGRAFIA



Caetés (romance - 1933), Editora Schmidt, Rio de Janeiro.
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Graciliano Ramos. Cahetes. Schmidt. Rio de Janeiro. 1933.x 231 p.











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Graciliano Ramos. Cahetes. 2 ed. José Olympio. Rio de Janeiro. 1947. 231 p.



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 • São Bernardo (romance - 1934), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.






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São Bernardo
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RESENHA: Como a paisagem árida e impiedosa do sertão nordestino, esta narrativa se vale apenas do essencial. Para o autor, o mundo não libera encantos, as paisagens são apenas pontos de referência entre os quais os personagens se movem. Essa linguagem crua e despojada está fortemente presente nessa obra que tem a força de uma tragédia rural brasileira e conta a história de Paulo Honório, um homem simples que, movido por uma ambição sem limites, acaba por se transformar num grande fazendeiro do sertão alagoano e casa-se com Madalena para conseguir um herdeiro. Incapaz de entender a ótica humanitária pela qual a mulher vê o mundo, ele tenta anulá-la com seu autoritarismo. Com esse personagem, Graciliano traça o perfil da vida e do caráter de um homem rude e egoísta, do jogo de poder e do vazio da solidão, onde não há espaço nem para a amizade, nem para o amor.

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• Angústia (romance - 1936), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.




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• Vidas Secas (romance - 1938), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.






Graciliano Ramos. Vidas Sêcas. 1 ed. José Olympio. Rio de Janeiro 1 ed. 1938. 197 p.






• A Terra dos meninos pelados (romance - 1939), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.




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• Infância (memórias - 1945), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.



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• Insônia (contos - 1947), Livaria Martins Editora, Rio de Janeiro.


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• Memórias do cárcere (memórias - 1953 - póstuma), Livraria  Martins Editora, Rio de Janeiro.





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• Viagem (relato de viagem - 1954 - póstuma), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.




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• Alexandre e outros heróis (contos - 1962 - póstuma), Livraria  Martins Editora, Rio de Janeiro.



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• Linhas tortas (crônicas - 1962 - póstuma), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.



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• Viventes das Alagoas (crônicas - 1962 - póstuma), Livraria Martins Editora, Rio de Janeiro.



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O HOMEM E SUA OBRA"

por Jorge Amado


Um dos fenômenos mais curiosos do avanço cultural do Brasil, revelador de nosso rápido amadurecimento, é o fato de Graciliano Ramos, escritor considerado difícil por volta de 1940, situar-se hoje entre os romancistas de maior popularidade do País. Suas edições sucedem-se, alguns dos seus livros colocam-se entre os best sellers permanentes nas livrarias do norte ao sul, das grandes e das pequenas cidades. Não há dúvida: apesar das marchas e contramarchas, dos recuos e das tentativas do entreguismo de fazer o Brasil retornar a uma economia agropastoril de economia exportadora de matérias-primas e importadora de luxo e miséria, apesar do golpe de estado reacionário de 1964, apesar de tudo isso o Brasil cresce, faz-se poderoso, econômica e culturalmente.
Graciliano Ramos, romancista de Alagoas, duro sertanejo de indômita vontade, têmpera de aço, foi um dos escritores que mais concorreram para esse avanço brasileiro. Foi um dos construtores de sua época, criador de uma grande literatura e da consciência nacional.
Pelos meados de 1933, tomei no Rio um pequeno navio da Companhia Nacional de Navegação Costeira, um daqueles "Itas" que viraram folclore e música popular, e rumei para Maceió, onde habitava Graciliano Ramos. Era nos tempos heróicos do "movimento de 30" - movimento literário que sucedia ao Modernismo somando um interesse real pelo homem brasileiro e seus problemas às conquistas formais da Semana de Arte Moderna. O Modernismo processara-se na cúpula de salões literários, em São Paulo e no Rio, e de revistas de pequena circulação. Só muitos anos depois o público viria tomar conhecimento dos grandes nomes de 1922 e um Mário de Andrade, por exemplo, só alcançaria um vasto círculo de leitores nos dias de agora, de um Brasil em luta contra o subdesenvolvimento, industrializando-se, rasgando estradas para a Amazônia, construindo Brasília.
O "movimento de 30" processou-se, por assim dizer, no meio da rua, entre o povo. Essa a sua diferença essencial para o Modernismo.
Surgiram nomes e livros e logo se tornavam populares, começou a existir uma coisa antes desconhecida no Brasil: o público ledor. Nomes e livros: José Américo de Almeida e Bagaceira ainda em 1928, o primeiro, sem o qual não existiríamos; Rachel de Queirós e O Quinze; José Lins do Rego e Menino de Engenho; Amando Fontes e Os Corumbás, Érico Veríssimo e Clarissa; José Geraldo Vieira e A Mulher que Fugia de Sodoma; Lúcio Cardoso e Maleita; Marques Rebelo e Oscarina.
Apesar de alguns desses então jovens escritores estreantes eram do sul do país, falava-se sobretudo em romance do Nordeste, talvez porque mais marcada nos nordestinos certas preocupações relativas aos problemas sociais das cidades e do campo, do homem brasileiro.
Naquele ano de 1933 começou-se a citar o nome de Graciliano Ramos, a propósito de uns relatórios que, como prefeito de uma pequena cidade do interior, Palmeira dos Índios, enviara ao governo do Estado. Os originais de um romance seu haviam chegado à Editora Schmidt, espécie de Meca do "movimento de 30", eu lera esses originais e encheram-me do mais completo entusiasmo.
Naquela época Maceió era importante centro cultural: lá estavam os paraibanos José Lins do Rego e Santa Rosa, a cearense Rachel de Queirós, e entre os alagoanos, Jorge de Lima, Valdemar Cavalcanti, Aurélio Buarque de Holanda, Carlos Paurílio, Alberto Passo Guimarães, Aluísio Branco. Aliás, foram Alberto Passos e Santa Rosa, recém chegados ao Rio, os incentivadores de minha viagem Tendo feito uma parada em Aracaju para ver uma namorada - conhecimento de viagem anterior, noutro "Ita" - toquei-me para a capital de Alagoas. Viagem Feliz: fiz amigos que, alguns o são, e dos melhores, até hoje, e outros que foram durante toda a vida, aqueles que a morte já levou. De 1933 a 1953, quando ele morreu, fomos, Graciliano e eu, amigos de todos os dias e em todas as situações. Situações por vezes bem difíceis, duras ou complicadas, pois esses vinte anos incluíram, em seu bojo, uma grande guerra e, no Brasil, pequenas guerras locais.
A publicação de Caetés procedeu de apenas poucos meses a de São Bernardo e logo toda a crítica e o público compreenderam a importância do novo escritor, sentiram o agradecimento de um verdadeiro mestre de nossa ficção, nome a juntar-se a uns poucos, como Machado de Assis e Aluísio de Azevedo. Pode-se dizer que Graciliano Ramos foi considerado um "clássico" do romance e do conto brasileiros quando ainda em vida. Escreveu mais dois romances, além desses primeiros: Angústia e Vidas Secas. Com este último, retomando o tema, que parecia esgotado, das secas, do árido sertão dos retirantes, deu à nossa literatura uma de suas obras-primas, livro de densidade incomum, de raro equilíbrio, de comovedora beleza. Recordo-me do "velho Graça" (Graciliano estreou aos quarenta e poucos anos de idade e nós, seus companheiros de literatura, alguns bem mais moços que ele, sempre o chamamos, carinhosamente, de "velho") escrevendo esse romance, entre sucessivos cigarros e grandes xícaras de café, Vidas Secas ganhou o mundo, creio ser o romance de Graciliano mais traduzido e publicado no estrangeiro.
Graciliano foi mestre do romance e mestre do conto, como Machado de Assis, e Lima Barreto. Caso bem raro em nossa literatura, onde poucas vezes um escritor consegue se firmar nos dois gêneros. Quase sempre contistas excelentes são romancistas medíocres ou vice-versa. No caso especial de Vidas Secas, o romance - e romance de primeira qualidade - é formado por um conjunto de narrativas que, tomadas isoladamente, são contos da melhor qualidade.
Graciliano foi, entre os escritores do "movimento de 30", o que mais se aproximou da perfeição. Ante a justeza, a correção brasileira da língua portuguesa por ele escrita, nós, os outros ficcionistas do Nordeste, somos uns bárbaros. Esse sertanejo de Palmeira dos Índios nasceu clássico, um clássico brasileiro.
Sertanejo feito de uma só peça, um caráter, uma consciência. Não foi só um grande escritor, foi um grande homem. Em cargos de governo - diretor da Imprensa Oficial ou Secretário de Educação em seu Estado - nas pensões baratas da Rua do Catete, no Rio, nas celas das prisões, na trágica promiscuidade da Colônia Correcional, na banca de jornal corrigindo originais de jornalistas famosos, no tempo final da enfermidade terrível, guardou sempre uma dignidade exemplar do homem e o cidadão. Pessimista em relação aos políticos e à vida literária, foi extraordinária sua confiança no povo, sua fidelidade à literatura. Homem de quebrar, jamais de dobrar-se, sem vaidade mas de profundo orgulho, reservado e mesmo tímido em certos momentos, soube, no entanto, não se isolar da vida e dos problemas do País, não fugir às obrigações impostas por seu tempo dramático. O livro que nos dá sua justa medida de homem, de um homem muito além do comum, é Memórias do Cárcere, no qual a alta qualidade literária imortaliza um depoimento terrível sobre uma época espantosa de nossa vida nacional.
Esse homem seco e difícil, seco de carnes, econômico em sua literatura da qual eliminou qualquer gordura, cuja amizade era moeda de câmbio alto, reservada para alguns, que começou a escrever já maduro e que morreu cedo, plena força criadora, esse Graciliano Ramos do interior de Alagoas, com algo de senhor feudal e de cangaceiro reivindicador, foi um dos homens mais doces e ternos que conheci, dos mais fiéis aos seus amigos - a lealdade era sua virtude fundamental.
Recordo o velório de seu corpo na Câmara Municipal do Rio de Janeiro; escritores choravam pelos cantos, choravam homens rudes, operários, gente humilde do povo. Ele não era um líder nem mesmo um escritor de fácil popularidade. Mas sua grandeza era compreendida por todos, todos sentiam que havíamos perdido um dos nossos maiores artistas, um homem excepcional.
Hoje sua obra reunida em coleção primorosa pela Livraria Martins Editora, ilustrada pelos grandes artistas, alcança a popularidade só reservada aos escritores fundamentais, aqueles que são a própria carne e o próprio sangue de seu povo, os verdadeiros clássicos porque sempre modernos, imortais. Seus romances são traduzidos nas línguas mais diversas e revelam às gentes distantes a face de nossa gente brasileira. Mestre Graça cresceu e sempre crescerá com o Brasil, com a pátria que ele ajudou a construir.
Jorge Amado

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Milton Hatoum lembra pessimismo, política e autocrítica de Graciliano

Cauê Muraro Do G1,

Milton Hatoum faz conferência de abertura da Flip 2013; ele falou sobre Graciliano Ramos (Foto: Flavio Moraes/G1)Milton Hatoum faz conferência de abertura da Flip 2013; ele falou sobre Graciliano Ramos (Foto: Flavio Moraes/G1)

Na conferência de abertura da 11ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na noite desta quarta-feira (3), o escritor amazonense Milton Hatoum lembrou-se do Graciliano Ramos (1892-1953) obsessivamente "autocrítico", pessimista ao ponto de questionar um cumprimento como "boa noite" e político responsável com relação a "gastos públicos". Também comparou-o a Machado de Assis, repetindo o termo "pessimismo" e adicionando agora o "niilismo" como qualidade definidora.
Autor ainda de livros como "Angústia", "São Bernardo" e "Memórias do cárcere", Graciliano é o grande homenageado da edição 2013 do evento, que vai até domingo (7) na cidade do litoral sul do Rio de Janeiro. Por isso, foi o tema da palestra de Hatoum, conhecido por obras como “Relato de um certo oriente”, “Dois irmãos” e “Cinzas do norte”.

"Boa noite  por quê?'

Ao entrar no palco, Milton Hatoum disse "boa noite" aos presentes na Tenda dos Autores e fez uma brincadeira, dizendo que Graciliano, ao ouvir tal cumprimento, costumava responder: "Você acha mesmo?". E então definiu o homenageado como "pessimista radical". Para reforçar a avaliação, citou dois outros autores: "Graciliano Ramos tinha fama de ser áspero e intratável como o cacto do poema de Manuel bandeira. Mas um cacto já se humanizando, como disse Murilo Mendes num poema. Era afetuoso entre amigos e parentes, e irônico quando se referia a si mesmo".

Logo em seguida, ainda naquele início do discurso, Hatoum fez referência à atividade política de Graciliano Ramos, que entre 1928 e 1930 foi prefeito de Palmeira dos Índios (AL). Não por acaso, a primeira "obra" lida ao público pelo palestrante durante a conferência de abertura foram dois relatórios de prestação do contas feitos pelo então prefeito. "São textos muito bem escritos. (...) Há, de fato, cifras e crifrões, mas já aparecem os assuntos de 'Vidas secas', 'São Bernardo' e 'Infância'. Além disso, a crítica, o tom desabusado e irônico, as frases breves já apontam para um estilo", afirmou Hatoum. "Desde 'Caetés', livro de estreia, o narrador problematiza a linguagem, e busca com esforço a lucidez e o rigor, que é avesso à espontaneidade." Foi recorrente, na conferência, a comparação entre Graciliano e outros autores, notadamente Machado de Assis. "Ele é machadiano pelo tom desabusado, pela linguagem concisa, pela exploração en profundidade de questões sociais e políticas e pela loucura e desajustes de certos personagens", enumerou. "Graciliano nunca submeteu sua obra ficcional à propaganda idelogócia. Mas, à semelhança de Machado, não escamoteou a verdade das relações humanas." Mais tarde, foram citados Guimarães Rosa, Eça de Queiroz, Balzac e Dostoievski. Hatoum também abordou mais detidamente os livros "São Bernardo, "Vidas secas", "Infância" e "Memórias do cárcere". "A obra de Graciliano surge no contexto de mudanças políticas sociais e culturais." Sobre os personagens e a "modernidade atrasada" da fazenda que serve de cenário à primeira obra, especulou: "Dizem muito sobre o Brasil da década de 1920 e - por que não dizer? - do Brasil de 2013".

Na hora de avaliar "Vidas secas", Hatoum recorreu a Rubem Braga, lendo trechos de um texto do cronista sobre o livro, em que brincava com o fato de poder ser visto como uma coleção de contos autônomos. "Graciliano não fez assim por criação literária, fez por necessidade financeira. Ia  escrevendo e vendnendo à prestação. Depois vendeu tudo por atacado. O autor fez, assim, uma nova técnica e romance no Brasil: o romance desmontado." Por fim, após repisar a "autocrítica obsessiva e implacável ao ponto da soberba" de Graciliano - que não tinha "autoindulgência" ou "sentimentalismo", Milton Hatoum falou que homenageado "igualava-se com humilidade a Fabiano, um herói diminuído sem qualquer grandeza intelectual ou material". Fabiano é o miserável chefe de família de "Vidas secas". E citou o último parágrafo de um discurso feito por Graciliano Ramos em 27 de outubro de 1942, quando recebeu uma homenagem. Na ocasião, teria se comparado ainda aos personagens Paulo Honório, de "São Bernardo", e Julião Tavares, de "Angústia".
"Ninguém dirá que sou vaidoso referindo-se a estes três indivíduos. É possível que eu tenha semelhança com eles, e que haja, utilizando os recursos capengas, conseguido animá-los", afirmou, autodescrevendo-se como "aparelho registrador". "E nisto não há méritos. Associo-me aos senhores numa demonstração de solidariedade a todos os infelizes que povoam a terra." Hatoum não chegou a dizer se Graciliano desejou qualquer "boa noite" antes do discurso.

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Data: Julho 2012 / Janeiro 2013 / Julho de 2014

sábado, 28 de julho de 2012

Humberto de Campos - o escritor que continou escrevendo apos a morte !

Humberto de Campos




Humberto de Campos Veras (Miritiba, 25 de outubro de 1886Rio de Janeiro, 5 de dezembro de 1934) foi um jornalista, político e escritor brasileiro.

Biografia

De origem humilde, era filho de Joaquim Gomes de Farias Veras e Ana de Campos Veras. Nasceu no então Município maranhense de Miritiba - hoje batizado com o seu nome. Com a morte do pai, aos seis anos, mudou-se para São Luís, onde começou a trabalhar no comércio local para auxiliar na subsistência da família. Aos dezessete, muda-se novamente para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará.
Em 1910, quando contava 24 anos, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX".
Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras, sucedendo Emílio de Menezes na cadeira n.º 20. Um ano depois ingressa na política, elegendo-se deputado federal pelo seu Estado natal, tendo seus mandatos sucessivamente renovados até a eclosão da Revolução de 1930, quando é cassado. Após passar por um período de dificuldades financeiras, é nomeado, graças à admiração que lhe votavam figuras de destaque do Governo Provisório, Inspetor de Ensino no Rio de Janeiro e, posteriormente, diretor da Casa de Ruy Barbosa.
Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. A obra obteve imediato sucesso de público e de crítica, sendo objeto de sucessivas edições nas décadas seguintes. Uma segunda parte da obra estava sendo escrita por Humberto de Campos quando de seu falecimento, vindo à lume postumamente sob o título de Memórias Inacabadas.
Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de dezembro de 1934, aos 48 anos, em virtude de uma síncope ocorrida durante uma cirurgia.
Tendo Humberto de Campos falecido no auge de sua popularidade, diversas coletâneas de crônicas, anedotas, contos e reminiscências de sua autoria foram publicados nos anos seguintes a sua morte, época em que também vieram à lume diversos livros supostamente escritos pelo espírito do escritor, sendo tendo sido psicografados pelo médium Chico Xavier. Os familiares de Humberto de Campos processaram judicialmente este último, alegando a ausência de pagamento de direitos autorais. A demanda, que provocou grande polêmica na época, foi julgada improcedente (conferir detalhes do processo abaixo)
Em 1950, nova polêmica: o Diário Secreto mantido pelo autor em alguns períodos da década de 1910 e com assiduidade de 1928 até sua morte é divulgado pela revista O Cruzeiro, cujos editores o publicam em livro em 1954. A publicação causou escândalo à época de sua publicação em razão de diversos registros e impressões pessoais feitos por Humberto de Campos a respeito de pessoas de grande notoriedade nas letras, política e sociedade de sua época, incluindo Machado de Assis, Getúlio Vargas, Olavo Bilac, e outros.
Sucessivas edições das Obras Completas de Humberto de Campos foram publicadas por diversas editoras (José Olympio, Mérito, W. M. Jackson, Opus) até 1983.
As constantes preocupações de ordem financeira, as quais o obrigavam a redigir diariamente crônicas, contos e artigos de crítica literária a fim de garantir sua subsistência, bem como os prolongados problemas de saúde que resultaram em uma morte prematura, impediram Humberto de Campos de se debruçar sobre projetos literários de maior envergadura, razão pela qual parcela substancial de sua bibliografia é constituída de coletâneas de seus escritos, os quais constituem útil instrumento para a análise da vida cotidiana e literária dos anos 1910, 1920 e 1930 no Brasil. A temporalidade que caracteriza essa parcela substancial de sua bibliografia parece ser a principal razão para o pouco interesse que atualmente o seu nome desperta entre os leitores e no meio acadêmico.



Psicografia

É polêmica antiga no meio jurídico o valor probatório da psicografia. O caso mais famoso indubitavelmente foi o de Humberto de Campos. A partir de 1937, três anos após a morte de Campos, várias crônicas e romances atribuídos ao escritor começaram a ser psicografados pelo médium brasileiro Chico Xavier. Entre as obras, todas editadas pela Federação Espírita Brasileira, a de maior notoriedade entre os espíritas brasileiros foi Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho.





No ano de 1944, a viúva de Humberto de Campos ingressou em juízo, movendo um processo contra a Federação Espírita Brasileira e Francisco Cândido Xavier, no sentido de obter uma declaração, por sentença, de que essa obra mediúnica "era ou não do 'Espírito' de Humberto de Campos", e que em caso afirmativo que ela tivesse os direitos autorais da obra. O assunto causou muita polêmica e, durante um bom tempo, ocupou espaço nos principais periódicos do País. A Autora, D. Catarina Vergolino de Campos, foi julgada carecedora da ação proposta, por sentença de 23 de agosto de 1944, do Dr. João Frederico Mourão Russell, juiz de Direito em exercício na 8º Vara Cível do antigo Distrito Federal. Tendo ela recorrido dessa sentença, o Tribunal de Apelação do antigo DF manteve-a por seus jurídicos fundamentos, tendo sido relator o Ministro Álvaro Moutinho Ribeiro da Costa.





Fonte: Wikipedia - http://pt.wikipedia.org/wiki/Humberto_de_Campos


BIBLIOGRAFIA
  
  • Da seara de Booz - crônicas - 1918
  • Vale de Josaphat - contos - 1918
  • Tonel de Diógenes - contos - 1920
  • A serpente de bronze - contos - 1921
  •  
  • Mealheiro de Agripa - 1921
  • Carvalhos e roseiras - crítica - 1923
  • A bacia de Pilatos - contos - 1924
  • Pombos de Maomé - contos - 1925
  • Antologia dos humoristas galantes - 1926
  • Grãos de mostarda - contos - 1926
  • Alcova e salão - contos - 1927
  • O Brasil anedótico - anedotas - 1927
  • Antologia da Academia Brasileira de Letras - participação - 1928
  • O monstro e outros contos - 1932
  • Memórias 1886-1900 - 1933
  • Crítica (4 séries) - 1933, 1935, 1936
  • Os países - 1933
  • Poesias completas - reedição poética - 1933 Clique para ampliar a capa
  •  
  • À sombra das tamareiras - contos -1934







  • Sombras que sofrem - crônicas - 1934
  •  
  • Um sonho de pobre - memórias - 1935
  •  
  • Destinos - 1935
  •  
  • Lagartas e libélulas - 1935
  •  
  • Memórias inacabadas - 1935
  •  
  • Notas de um diarista - séries 1935 e 1936
  •  
  • Reminiscências - memórias -1935
  •  
  • Sepultando os meus mortos - memórias - 1935
  •  
  • Últimas crônicas - 1936
  •  
  • Contrastes - 1936
  •  
  • O arco de Esopo - contos - 1943
  •  
  • A funda de Davi - contos - 1943
  •  
  • Gansos do capitólio - contos - 1943
  •  
  • Fatos e feitos - 1949
  •  
  • Diário secreto (2 vols.) - memórias - 1954




 BIOGRAFIA SEGUNDO ABL (http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=643&sid=221)

Poeira, poesia, 2 séries (1910 e 1917)

Poeira... - 2a.série - Humberto De Campos - 1917 -1a. Edição

 Da seara de Booz, crônicas (1918)



Vale de Josaphat, contos (1918);

 Tonel de Diógenes, contos (1920)




; A serpente de bronze, contos (1921); Mealheiro de Agripa, vária (1921)

 


Carvalhos e roseiras, crítica (1923)



 A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); Grãos de mostarda, contos (1926); Alcova e salão, contos (1927);

 O Brasil anedótico, anedotas (1927)





Antologia da Academia Brasileira de Letras (1928); O monstro e outros contos (1932);
Memórias 1886-1900 (1933)




Crítica, 4 séries (1933, 1935, 1936)





Os países,(1933); Poesias completas (1933)

À sombra das tamareiras, contos (1934);




Sombras que sofrem, crônicas (1934)




 Um sonho de pobre, memórias (1935)

Destinos,(1935);

Lagartas e libélulas, (1935)



Memórias inacabadas (1935)




Notas de um diarista, 2 séries (1935 e 1936);

Reminiscências, memórias (1935)



Sepultando os meus mortos, memórias (1935); Últimas crônicas (1936); Perfis, 2 séries, biografias (1936); Contrastes, (1936);

 O arco de Esopo, contos (1943)




A funda de Davi, contos (1943)

Gansos do capitólio, contos (1943)

Fatos e feitos, (1949);


Diário secreto, 2 vols. (1954).




CAPAS DOS LIVROS
  

   

































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SEMANARIO - A MAÇÃ

 

A Maçã - Semanario Ilustrado.  Raríssima revista com belas capas. Criada em 1922 pelo escritor Humberto de Campos - Conselheiro XX.

 A Maçã era altamente criticada pelos intelectuais da época e adorada pelo público masculino. Ilustrada pelos melhores profissionais, tinha caráter satírico e picante. Em dezembro de 1923 passou a ser diagramada pelas mãos do paraguaio Andres Guevara, que trouxe mudanças a revista e enriquecendo o projeto. Foi editada entre  entre 1922 a 1928.

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Discurso de Posse na Acadêmia Brasileira de Letras

 

SENHOR Presidente,
Senhores Acadêmicos,
Referem as crônicas do reinado de Luís XI que Nicolau Paulino, cancelário de Borgonha, após uma avaliação conscienciosa dos seus haveres em prata, e ouro, e terras, deliberou instituir um hospital para os pobres. Informado desta resolução, o soberano, que o sabia impenitente na cobrança dos impostos, na perseguição aos devedores mais humildes, aos foreiros mais necessitados, comentou cristãmente:
– É justo que, quem fez muitos pobres, edifique uma casa, para os amparar e recolher.
A vossa Academia foi, – consenti que vo-lo diga, – o meu cancelário de Borgonha. Oriundo de uma família de comerciantes, aos quais a fortuna tem sido propícia, eu me desgarrei do meu rebanho no crepúsculo matutino da vida, à passagem de um dos vossos pastores. Foi há vinte anos, quando o vosso confrade Sr. Coelho Neto andou, como Francisco Xavier nas Índias, a espalhar, entre bárbaros, a árvore da Beleza imperecível, com a semente de ouro do seu verbo. À passagem do taumaturgo, agrupavam-se os discípulos, revelavam-se os apóstolos, surgiam os iniciados. As marcas das suas sandálias eram novos canteiros no areial. As dunas do Ceará, o sertão maranhense, a floresta amazônica deficientemente desbravada, ouvindo o seu Evangelho, palpitaram, prevendo o prodígio. Do ventre do Saara saía um mundo novo. Era o milagre da Palavra fecundando o Deserto.
Ao barulho das multidões que o seguiam, vitoriando-o, aclamando-o, eu me ergui, de longe, nas pontas dos pés, para ver-lhe a passagem. Não o vi. Beijei, porém, a areia do seu caminho e não me saiu mais do pensamento infantil o rumoroso espetáculo da sua glória.
Aos dezesseis anos, tomando, por intuição, o meu bordão de solitário, saí a percorrer, como os monges infantes, os lugares que ele santificara com a sua peregrinação. Florestas, praias, cidades, sertões, eu tudo visitei, acompanhando na terra úmida, sempre veneradas, as suas pegadas indeléveis. Andei. Vaguei. Peregrinei. E vim, perdido nos Alpes, bater à porta do vosso mosteiro de São Bernardo. Era meu direito procurá-la. Era vosso dever, e da vossa piedade, abri-la. Fizestes de mim, pelo prestígio de um dos vossos companheiros, um sonhador, um egresso da fortuna, um rebelde às vantagens da vida utilitária. E manda o Código do Trabalho, em artigo generoso, que o operário seja amparado, na sua desgraça, pelo capitalista que o inutilizou.
A Cadeira que me designastes está, ainda, entre dois esquifes, que reclamam, no vosso templo, a minha oração: Emílio de Menezes, a quem me destes por sucessor; e Salvador de Mendonça, a quem me prestarei, oportunamente, e mais longamente, o culto da minha saudade.
Seria inexplicável, entretanto, que eu, de passagem, não deixasse uma flor, sequer, a quem penetrou a vida entre espinhos, e dela saiu entre rosas.
Salvador de Mendonça avulta, ainda agora, na minha imaginação, com a suave poesia de certas legendas medievais. Uma tarde, há sete anos, retirava-me eu de uma redação de jornal, quando cruzei, na escada, com um ancião de rosto erguido e olhos vidrados, que subia, com a mão esquerda sobre o ombro de um moço, e tateando, com a direita, a madeira do balaústre. Aquela fisionomia de estatuária grega era-me familiar. Eu tinha visto, já, em alguma parte, aquele rosto pálido, ornado daquela barba cuidada, quase alva, cortada em ponta. Em que busto de Homero ou de Édipo me haveriam mostrado aqueles olhos apagados? Em que mármore de Lisipo eu teria descoberto aquele brando sorriso de Sócrates, em que se misturavam, completando-se, doçura e severidade? Voltei sobre os meus passos e contemplei o ancião. Era Salvador de Mendonça, que, glorioso e cego, ia levar à folha, naquele dia, as suas reminiscências.
Nada me patenteia tanto a fragilidade humana como a presença dolorosa de um cego. A contemplação de Homero ou de Milton enche-me de pavor. Diante deles, apontando-os, eu vejo a Natureza, que me diz: “Homem fútil, verme triste da terra, vê, agora, o que és tu! O planeta, dizes, é teu. É teu o que te rodeia. Inventas aparelhos atrevidos para sondar o mistério dos mundos. Sobes às nuvens. Cortas os montes. Desces ao fundo do mar. Entretanto, vê: basta que eu te sopre aos olhos um grão de areia para que te sintas solitário no universo!”
Se o Homem nasceu, realmente, para a contemplação e a posse da Natureza, por que ela não o fez como as pedras preciosas, que refletem o sol por todas as faces? Por que Ela, tão pródiga, só concedeu à alma, para espiá-la e namorá-la, as delicadas janelas dos olhos?
A Natureza dirá, talvez: “Homem, se, vendo-me tão pouco, tanto me desejas e afliges, que seria de mim se teus olhos tivessem, na terra, o tamanho do teu coração!”
Salvador soube, porém, consolar-se da sua cegueira: vivia de recordações e de rosas.
Dentro da sua treva ele criara um mundo novo: plantou um jardim, adotou, ao lado das filhas, uma família de roseiras, e fez, de umas e outras, na glória da sua velhice, o consolo da sua cegueira.
O crepúsculo desta nobre vida, esmorecendo num rosal, tem a doçura religiosa de um grande quadro pagão. Cego e velho, este Anacreonte honesto abandonou a orgia tumultuosa do mundo, e as rosas o recolheram. E ele as apertava, ainda, nas mãos geladas, quando ressoaram os punhados de terra, graves, profundos, soturnos, sobre as tábuas do seu caixão...
Há uma face da sociedade brasileira que vem reclamando, de há muito, o cuidado dos historiadores. É a que se compõe de figuras brilhantes e curiosas, que se não fazem preceder de nenhum anúncio, que prometa o milagre. São árvores fortes e altas, que espantam o céu, agasalham os pássaros, mas de que a selva, em geral, desconhece a semente. São os homens que nascem de si mesmos, sem família notável, sem avós ilustres, sem antepassados gloriosos, e que formam, na vida intensa, a democracia dos salões, da política, das letras e das finanças. No Exército social, eles são os generais de caserna que conquistaram os postos sob a fuzilaria, e que compraram com o próprio sangue, nos campos de batalha, aquilo que é obtido por outros, facilmente, pela simples casualidade do nascimento. Como a generalidade dos heróis, eles começam nas fileiras, na promiscuidade dos quartéis, no tumulto da multidão. Há, entretanto, nestes privilegiados, uma força que os impele para a claridade, desagregando-os do meio em que tiveram origem. São elementos que se individualizam, gotas de azeite que sobem à tona, bolhas de ar que se elevam do leito dos rios, atravessam a água e se aliam, em cima, à espuma que passa... No conjunto da sociedade, eles trazem no orgulho, no desassombro, na rebeldia e, não raro, na brutalidade das maneiras, o estigma da procedência. A aristocracia odeia-os, mas tem de recebê-los, de aplaudi-los, de suportá-los. São os intrusos, que se impõem, e que constituem, geralmente, a fachada de ouro, sempre renovada, do edifício social.
Emílio de Menezes foi um desses combatentes que se impuseram, em um meio propício, com a clava da sua coragem. Descendente de um casal pobre, que desabrochou em oito mulheres e um homem, que era ele, sentiu o futuro poeta, muito cedo, a necessidade de abandonar Curitiba, sua cidade natal. Um dia, uma das irmãs casou com um farmacêutico da capital, e o cunhado, no propósito de auxiliar a família a que se aliara, admitiu como empregado de balcão, na sua farmácia, o único rebento masculino daquele ramo curitibano.
Emílio de Menezes, que andava, então, pelos quatorze anos, era um rapazola comprido, esguio, e de poucas letras. Os seus conhecimentos eram todos primários, bastantes, entretanto, para que ele não errasse na manipulação das receitas, nem confundisse, no comércio miúdo, as raízes medicinais. O “Chernoviz”, com as suas estampas instrutivas, merecia-lhe cuidados afetuosos, despertando-lhe um religioso interesse pelas plantas, pelos animais que se sacrificavam em benefício do homem, pelo conjunto, enfim, dos fenômenos e cousas da Natureza. Foi nesse ambiente, com certeza, no convívio do ácido prússico, da macélia, da nux-vômica, da genciana e da centáurea menor, que o seu espírito desabrochante se impregnou do amargo violento e dos princípios corrosivos que o haviam de particularizar, mais tarde, sobre a terra. O convívio dos venenos havia de, fatalmente, envenenar-lhe a ironia.
Aos dezoito anos, influenciado pelo movimento literário a que dava início o entusiasmo de Rocha Pombo, Emílio de Menezes constituía, pela originalidade da sua figura e dos seus hábitos, uma das curiosidades de Curitiba. As suas roupas, feitas sob as recomendações diretas do seu capricho, traduziam-lhe a esquisitice do gênio, a bizarria das maneiras, a singularidade da imaginação. A calça, larga e comprida, escorria-lhe pelas pernas finas de cegonha humana, repousando em botas enormes, de cores extravagantes. O paletó, frouxo, de comprimento incomum, descia-lhe pela ossatura delgada, com abundância de fazendas e de medidas. A gravata, em borboleta, era um escândalo, que o chapéu de feltro, de abas largas, aplaudia e completava. Possuía poucos amigos, repudiava as orgias, e raramente era visto entre rapazes joviais, mesmo quando se reuniam, de semana em semana, para a missa do seu ideal. Estes, entretanto, o respeitavam e queriam, pela novidade da sua palestra, entrecortada, sempre, de vivacidade maligna, ferina, escandalizante.
Um dia, fatigado da província, onde se indispusera com a maior parte da capital, chegou Emílio de Menezes a Paranaguá, fugindo aos seus conterrâneos. Amigos, pertencentes ao cenáculo de Curitiba, arranjaram-lhe dinheiro para uma passagem, e, com este, algumas cartas de recomendação amistosa. E é com estas, portadoras de esperança, que o vamos encontrar no Rio, quinze dias depois, relacionado, já, nas rodas de imprensa, por intermédio de alguns paranaenses generosos.
Uma das recomendações que trazia, era para o professor Coruja, e dera-lha Nestor Vítor. O destinatário da carta, liberal, afável, gentilíssimo com os rapazes de letras que o procuravam, estendeu a mão ao moço provinciano, abriu-lhe as portas do lar, franqueou-lhe a mesa, o coração, a intimidade. E, um ano depois, casava-se Emílio de Menezes com uma das filhas do seu hospedeiro, em companhia da qual saltava, em 1890, de regresso, em Curitiba, como funcionário federal, encarregado, ali, do recenseamento da população.
Tornando ao Rio de Janeiro, onde a Fortuna o esperava, começou para o boêmio do Paraná um período de prosperidade. Era na orgia financeira do Encilhamento. A falsa riqueza desafiava o apetite dos homens, derramando-lhes aos pés, pródiga, o ouro mentiroso da sua cornucópia de papelão. Emílio, valendo-se de amizades opulentas, obteve capitais e entrou a realizar, na Bolsa, especulações aventurosas. Foi feliz. O ouro enchia-lhe as algibeiras, e passava, das suas, para a dos boêmios necessitados. Morava, então, na Rua da Luz, em uma casa que se tornou, pela sua prodigalidade, a hospedaria dos amigos. À sua mesa, de proporções invulgares, sentavam-se capitalistas e poetas. Da imprevidência da cigarra laboriosa, viviam, então, cigarras e formigas. Tomou o paladar à opulência, à vida suntuária dos banqueiros, aos hábitos aristocráticos da nova fidalguia republicana. Comprava móveis antigos objetos caros, preciosidades de gosto e de custo. Possuía um carro de luxo, onde se acomodava elegante com as suas roupas irrepreensíveis, o seu feltro de Mosqueteiro e os seus plastrons extravagantes, em que brilhava, sempre, uma pedra de preço. Começou a engordar. A prosperidade econômica fizera-se acompanhar da prosperidade das banhas. E quando a primeira fugiu, a segunda, mais leal, mais persistente, mais firme, não abandonou o boêmio. Ficou pobre, mas estava gordo.
Dessa feição do poeta, vós, todos, estais lembrados. A impressão que ele nos dava, nos seus tempos de saúde física, era a de um gigante feliz. A cabeça leonina, ampla, formosa, evocava os dias longínquos da terra em que a bondade era sócia inseparável da fortaleza. A face redonda e corada; a fronte larga; os olhos claros, grandes e doces; o bigode vasto e alourado, reduzindo as proporções da boca forte, de dentes sólidos, davam ao rosto de Emílio de Menezes o aspecto de um gigante de legenda árabe, arrancado pela civilização mais polida às entranhas salitrosas do mar. O corpo enorme, de um Cristóvão descido da montanha para as tentações boêmias da cidade, formava, com a sua máscara poderosa, um espetáculo de singeleza, de graça e de força, que nos fazia recordar, à primeira vista, a infância ingênua da humanidade.
Houve quem o comparasse, um dia, a Benvenuto Cellini. A comparação é acertada. Emílio de Menezes era, em verdade, como o divino bárbaro de Florença, um misto de atleta e de santo de simplicidade e de insolência, de ductilidade e selvageria. Colocado nos umbrais da Renascença, Cellini resumiu, em si mesmo, todo o esplendor e toda a treva de duas idades contraditórias. Rústico e genial, residiam, nele, a um mesmo tempo, a mansidão e a arrogância, a glória e a brutalidade, as delicadezas da intuição artística e os defeitos do instinto irrefreável. As suas Memórias são, hoje, a própria história do Renascimento. A mão que feria, que assassinava, que era o pesadelo dos príncipes, o espanto dos mercadores, o pavor dos lacaios, era a mesma que, instantes depois, se firmava, leve, sobre o ouro, fixando maravilhas espantosas e comoventes, pelo mimo, pelo apuro, pela gracilidade, na curva ressoante das taças e na peanha fulgente dos relicários!
Na arte e na pessoa de Emílio, havia, também, esse amálgama de meiguice e brutidão. Agressivo e generoso, irreverente e compadecido, ele era, ao mesmo tempo, leão e cordeiro. Os seus amigos tornavam-se, para ele, inatacáveis: eram diamantes sem jaça, almas sem pecado, pérolas sem defeito. Os seus inimigos não tinham virtudes: eram arvoredo sem fruto, espinheiros sem flor, terreno sem cultura, sem préstimo, sem utilidade. Havia nele, alternadamente, a humildade e a irreverência. Lisonjeava ou feria. A sua espada era de pluma ou de aço. Tudo dependia, nos combates, do alvo e da ocasião.
O seu gênio estava, entretanto, no brilho do ataque aos adversários. A sua língua, que teria sido servida pela sabedoria de Esopo no segundo almoço de Xanto, não respeitava, então, nem homens, nem santos, nem deuses. A maledicência transformava-se, nesses momentos, para ele, numa arte elegante e sagrada, de que se tornava o mais meticuloso dos sacerdotes. Utilizava a malícia, a sátira, a palavra ferina, com a graça, a volúpia, a perversidade galantes com que em Florença se utilizava o veneno. A sua imaginação, de uma fertilidade americana e de uma riqueza oriental, era, nesse particular, um jardim amavioso e encantado, onde colhia, a todo instante, para os desafetos, cavalheiros ou senhoras, flores de perfídia que entonteciam e envenenavam. As rosas da sua galanteria tinham caule de estilete. Homicida pela palavra, a sua estátua, quando ele a tiver, deve trazer nas mãos, como a de Harmódio em Atenas, um punhal e um ramalhete. À semelhança daqueles rajás indianos que matavam os prisioneiros dando-lhes o pó dos seus diamantes, ele misturava, nas suas vinganças, aos manjares da palestra, a faiscante pedraria do seu espírito. As cadeias de vocábulos com que inutilizava os adversários eram daquelas com que Alexandre algemou Dario derrotado: ensangüentavam os pulsos, mas eram de ouro.
A geração contemporânea de Emílio de Menezes, que é ainda a nossa, considerava-o o maior dos seus humoristas. Eu não sei de quem o fosse menos neste país, e contesto-lhe o título com os mesmos fundamentos que levaram Paul Stapfer a recusá-lo a Voltaire, condenando-o, entretanto, à gravidade majestosa de Shakespeare.
No seu estudo, que eu reputo completíssimo, de Machado Assis, Alcides Maya resume a opinião universal sobre o humour. “O humour – diz ele – é revolta, melancolia, piedade: fora apenas revolta, e não se exprimiria em forma artística, embora irregular; mas também é sombra de alma, humanidade que se não resignou de todo, que ainda sonha, ainda solidária... Brinca de morte com as suas criações; destrói e abate com a coragem negativa de um suicídio executado a rir; sobre a ruinaria que espalha, eleva, como em terra folgada, a pura animalidade; porém ao fundo, bem ao fundo das páginas afeleadas, lá está o ideal, fonte de justiça, de amor e de simpatia.” E em outra parte: “O humorista é um forte bom, vencido, mas sobranceiro à derrota, e na atitude que assume, não de orgulho puro, e sim de altivez dolorosa, há, anulando o despeito pessoal, uma certeza superior das contingências terrenas.”
É essa a legítima interpretação do humour, tomado nas suas correntes originárias. Filho pródigo da Compaixão e do Tédio, o humorista é, entre os homens de arte, o único, no planeta, que não tem leito nem pátria. Se quer chorar, os outros sorriem. Se ele sorri, os outros choram. As suas gargalhadas são lavadas de lágrimas e o seu soluço, quando o emite, vem à boca, doloroso, através de um sorriso Não odeia, nem ama. Os extremos do sentimento são-lhe desconhecidos, porque só ele se não ilude, crente, na terra, com as nuvens mentirosas do horizonte. Uma grande piedade triste enche-lhe o abismo do coração. Quando o rodeiam os pigmeus, ele olha para si mesmo, e sorri. E quando o assaltasse, por acaso, a vaidade da sua estatura, exaltada pelo conhecimento da própria fragilidade, ele olharia, para humilhar-se, o espetáculo das montanhas circunjacentes.
Colocado sem bússola, como todas as criaturas, no deserto da vida, o seu sono é vazio de sonhos, porque ele é o único, na caravana, que dorme sem esperança. Diverte-se com os homens como os deuses se divertiriam com ele. Individualizando-o, ele é o contraste, exato, daquele Luís Garcia, de Machado de Assis, que amava a espécie e aborrecia o indivíduo: o humorista consola o indivíduo e, porque a ela pertence, zomba da espécie. Se a vida fosse um templo, como o de Dagon, ele lhe abalaria as colunas, sepultando-se nos seus escombros com a grande massa dos filisteus.
Como artista, o “humorista” faz lembrar um homem de outro planeta que tivesse, de repente, aportado ao nosso, e que, no desconhecimento absoluto das nossas convenções e costumes, se pusesse, sem consulta, e aconselhado apenas pelo seu capricho, a fazer uso dos nossos objetos comuns.
Indiferente aos valores morais e artísticos, às fórmulas tradicionais e consagradas, a sua originalidade provém, exatamente, do conflito dos seus processos com a generalidade dos processos habituais. A moeda de ouro e o punhado de lama têm, entre os seus dedos, como arte e como moral, o mesmo padrão. Os homens e as cousas, para ele, não têm nome. Ele é o Supremo Sacerdote que lhes ministra o batismo, e que lhes dá um lugar provisório na criação, independente das origens. E como a sua justiça é, aparentemente, arbitrária, nasce, do choque do seu capricho com as convenções estabelecidas, o mérito da singularidade.
Definindo o humorismo como arte, diz Paul Stapfer, com humorística propriedade, que o humorista amarra um ramalhete de penas de pavão na cauda de um porco. O humorismo, como forma, nasce, realmente, do vago escândalo dos contrastes. O escritor que recuasse na imolação de uma página genial no altar de uma pilhéria comum, não seria um humorista. Este não desbarata, porque ele recusa valor à sua fortuna. Abraão, aí, jamais recua no sacrifício de Isaac, porque os pais, nessas montanhas, não reconhecem os filhos...
O que havia em Emílio de Menezes era o satírico; satírico à maneira de Horácio, de Marcial, de Lucílio, de Pérsio e, sobretudo, de Juvenal.
Quintiliano atribui à sátira uma origem puramente romana. Satira tota nostra est. E Horácio, que a perfilhou, concede a legítima paternidade a Lucílio.
A sátira, modalidade combativa, só podia nascer – di-lo um historiador – de um povo belicoso. Ela é uma arma como a espada, como a lança, como a flecha, como os mais perigosos instrumentos de guerra. A civilização grega, que deu Aristófanes, não suportaria a brutalidade de Marcial. As asas de ouro do espírito ateniense tombariam, rotas, ao peso de uma sentença de Horácio. O gênio latino, que levantou o Coliseu, enchendo-o de feras, estava mais apto à criação de um gênero literário que se podia transformar, de súbito, em espetáculo sanguinolento.
Entre o humorista e o satírico aprofunda-se um fosso insoterrável. O humorista zomba do mundo, e de si mesmo. São-lhe defesos a lisonja, o louvor, o elogio individual. O satírico zomba do homem, selecionando os indivíduos, e pode ser lisonjeiro, áulico, palaciano. Juvenal faz o panegírico de Catulo e respeita a austeridade de Adriano. Rabelais, o “patriarca do humorismo”, não encontrou um antídoto humano para o “ridículo de Pantagruel”. Examinando o trigal, o satírico escolhe as espigas, separando-as. O humorista amaldiçoa, ou abençoa, a seara, no seu conjunto; o pão do primeiro é feito com joio. O segundo tritura, para o seu pão, o joio e o trigo.
Exercida genialmente, como o foi por Juvenal, a sátira pode ser, na família ameaçada, a sentinela da virtude. Denunciando o vício atrevido, amedrontando o crime insolente, assinalando, rápido, com um traço de fogo, as feridas de caráter onde elas mostrem os bordos, o satírico é um dos elementos indispensáveis à disciplina dos instintos, dos costumes, das instituições. A sátira é, mesmo, o freio de ouro das sociedades desembestadas.
Sob esse aspecto, Emílio de Menezes foi, no seu tempo, incomparável. A sua irreverência, cáustica, mordaz, dilacerante, encheu vinte anos de vida carioca. Ninguém o ultrapassou no epigrama, na sátira, no dito oportuno e pitoresco. A língua portuguesa não teve jamais, entre nós, de um só homem tão copiosa contribuição de perversidade punidora, dentro das possibilidades da raça. A fama da sua mordacidade foi tão dilatada, que ele se queixava, nos últimos anos, – como sucede, aliás, a todos os satíricos – da responsabilidade, que lhe atiravam, de todas as irreverências que surgiam.
As flores da sua perversidade eram, entretanto, inconfundíveis. E essa produção corre mundo, faiscante, ferina, fraccionada, como um punhado de navalhas sem cabo, em que se deve pegar com cuidado. As suas lâminas têm, quase, um destino previsto. As flechas deste soldado de Anfípolis levavam endereço, geralmente, ao olho direito de Filipe. E vós sabeis como ele as atirava à rua, entre os dedos anônimos da multidão. Em uma roda de amigos, na Rua do Ouvidor, na Avenida, nas mesas da confeitaria Pascoal ou da Colombo, a conversa recaía, extemporânea, sobre um tipo ou sobre um fato. De repente, Emílio, que preferia ouvir a contar, abria em forquilha o polegar e o indicador da mão esquerda, sustentava com eles o bigode farto, e desatava a rir, num riso sacudido, sem estrépito, que era, sempre, à perspicácia dos conhecidos, o anúncio seguro de que a máquina terminara a manufatura de mais uma lâmina.
Certa vez, por exemplo, conversava-se de um escritor eminente, notável, entre nós, pela variedade e abundância das suas manifestações literárias.
– É um gênio – dizia alguém. – Ele faz versos, crônicas, romances, contos, crítica literária; é jornalista, orador, político; enfim, trata de tudo.
– Sim – atalhou Emílio; – mas é prédio da Avenida.
E como o apologista lhe pedisse o segredo da comparação, explicou:
– Muita frente, e pouco fundo!
Alguns dos nossos homens eminentes foram, por muito tempo, o objetivo permanente da sua ironia. Eram uma espécie de alvo em que ele se exercitava, acertando a mão ou, melhor, a língua, sempre que lhe faltavam tipos novos, postos sob a sua pontaria pela fatalidade dos acontecimentos. Entre esses mártires, havia um historiador ilustre, sábio respeitadíssimo, em torno do qual se criara, injustamente, uma lenda de desleixo, de abandono próprio, e, mesmo, de falta de higiene. Utilizando essa versão popular, contava, então, o poeta:
– Uma vez, ele mandou à tinturaria, para ser lavado, um terno com que andava há doze anos. Uma semana depois, aparece-lhe à porta um empregado do tintureiro, e entrega-lhe um embrulho pequenino, que lhe cabia na mão.
E como lhe perguntavam o que seria, Emílio concluía invariável:
– Eram os botões, menino! A roupa, de puída e velha, havia-se dissolvido na água.
Uma tarde, estava um de nós, eminente ironista, ao lado do poeta, quando passou, perto, arrogante, um cavalheiro conhecido na cidade pela sua aversão ao pagamento das dívidas. Ferido pela insolência do tipo, Emílio voltou-se, rápido, para o companheiro, perguntando-lhe, à queima-roupa.
– Em que se parece aquele sujeito com um botão?
O outro não atinou com a chave do enigma, e ele completou, perverso:
– É que ele também não paga a casa em que mora...
Um colecionador anônimo dos seus ditos excelentes registrou, dele, uma série copiosa de “maldades” do gênero.
Havia no Rio um jornalista de má fortuna, diretor de um periódico oportunista, que claudicava de uma perna, aleijada por uma inchação crônica, e que vivia, então, da exploração, mais ou menos inteligente, da vaidade alheia. Uma tarde passava este homem de imprensa e de negócios pela Rua do Ouvidor, arrastando, tardo, a perna enferma, quando um íntimo de Emílio de Menezes lhe chamou a atenção:
– Admira – diz – como aquele homem, com o tamanho defeito, seja tão “cavador”...
– Pois a mim não me admira – contrapôs o poeta.
E voltando-se para o companheiro:
– Ele não tem uma perna “inchada”?
Há vinte anos, era famoso no Rio, pelos seus processos de adquirir dinheiro, um boêmio cuja habilidade se tornou proverbial. A sua fórmula para promover a elasticidade das bolsas era cômoda e comovente. Chegava-se a um amigo, e lastimava-se:
– Veja só! Eu já tive uma fortuna regular, com os meus prédios, as minhas apólices, a minha caderneta de Banco... E hoje, sou isto!
E após uma pausa:
– Você, que me viu tão feliz, não me poderá “passar” uma de cinco mil réis?
Comentando esse meio de vida, Emílio explicava:
– Coitado do Rocha! O que ele diz é verdade. Ele teve posição, casa, fortuna. Hoje, vive do “passado”...
Já enfermo, apoiando-se ao bengalão que sempre o acompanhava, ia o poeta, uma tarde, pela Avenida, quando dele se acercou um dos parasitas do seu conhecimento.
– Boa tarde, Emílio! Como vai a saúde?
– Vai indo. Mas, que é que desejas? Dize, que eu tenho pressa.
O parasita, gentil, maneiroso, aproximou-se do poeta, passou-lhe as mãos pelo teclado de botões do fraque preto, sacudindo as partículas de uma poeira imaginária. De repente, descobrindo-lhe na gola um fiapo branco olvidado pela escova, tomou-o com os dedos, lançando-o, ao solo, enquanto dava o assalto:
– Estou, Emílio, em um dos meus piores dias; arranja-me uns dez mil réis...
– Dez mil réis! – trovejou a vítima, recuando.
E apontando para gola do fraque:
– Põe já o fiapo aqui!
O seu orgulho esteve, sempre, aliado à sua mordacidade. Ninguém lhe feria o brio de homem, mesmo a título de gracejo, sem sofrer, prontamente, a represália. Pretendendo fazer espírito, um deputado convidou-o para um aperitivo:
– Quero dar-te a honra da minha companhia... Vamos tomar alguma cousa...
E o poeta, com um sorriso de piedade:
– A honra? ... Obrigado, meu velho; você já está tão desfalcado...
As suas definições possuíam um cunho inconfundível, pelo pitoresco, pela novidade, pela graça imprevista.
Um dos seus amigos, o padre Severiano de Rezende, de regresso de Paris, onde deixara a batina, surgiu, um dia, diante do poeta, à Rua Gonçalves Dias, trajando jaquetão claro, chapéu de palha, flor à lapela, mas tendo à mão, em conflito com aquela meia elegância, um guarda-chuva de cabo torcido.
– Estás belo, padre, assim à paisana!
– Achas?
– De certo.
E olhando melhor:
– Agora, é só a bengala que traja à clerical.
– Que bengala? – estranhou o ex-sacerdote. – Isto é um guarda-sol...
E Emílio:
– Pois é isso mesmo; que é um guarda-sol senão uma bengala de batina?
De um funcionário do governo que se queixava de não receber os vencimentos há seis meses, e que vivia na penúria, dizia ele, penalizado:
– Coitado! Já tem teias de aranha no céu da boca!...
Em roda de literatos, um deles, discutindo poesia, procurou amesquinhar Machado de Assis, observando, leviano:
– Era um péssimo poeta. O último verso dos tercetos A uma creatura tem onze sílabas; é um verso de pé quebrado!
Emílio, que nutria uma religiosa admiração pelo Mestre, franziu a testa profética, e protestou, soturno:
– Os bons versos não têm pés; têm asas!
As anedotas puramente anônimas de Emílio de Menezes, isto é, aquelas que não visavam indivíduos, nem eram atualizadas com a intercalação de nomes próprios, constituirão, no futuro, um dos mais finos cabedais do repertório da língua.
Não há literatura mais rica, mais opulenta, do que essa de anedotas, que circula pelo mundo nas páginas cosmopolitas dos almanaques. Lendo esses repositórios, sobem a centenas, a milhares, os ditos, os trocadilhos, as facécias que fariam honra aos espíritos mais escrupulosos e agudos. Quem teria lançado, entretanto, à campina sem dono, essas flores maravilhosas? Que mão misteriosa teria passado na treva, semeando, no silêncio da noite, esse trigo de ouro, de que se alimenta, sem susto, a alegria inocente do povo? Quem atirou ao oceano esses punhados de pérolas, que vêm enfeitar, entre o espanto dos pescadores que passam, o colo arfante das praias?
Emílio de Menezes foi um desses perdulários. A sua jovialidade era uma água miraculosa que ele dava a beber a toda a gente, e que ainda lhe extravasava das mãos. Essa água, pura e fresca, irá, mais tarde, como a dos rios, perder-se no mar. Identifiquemo-la, entretanto, enquanto se não dá de tudo a fusão da torrente no oceano.
Certa vez, ia o poeta em um bonde, quando se sentaram no banco imediato, em frente, duas senhoras de grandes banhas, que dificilmente puderam penetrar no veículo. Com o peso das duas matronas, o banco, que era frágil, range, estala, geme, estranhando a carga. Emílio, que observa o caso, leva a mão à boca no seu gesto característico, e põe-se a rir em silêncio, no seu riso sacudido e interior. E como o companheiro o olhasse, explicou:
– Sim, senhor! É a primeira vez que eu vejo um banco quebrar por excesso de fundos!...
E desatou a rir, de novo, sustentando o bigode nas mãos.
No discurso que Emílio de Menezes pretendia proferir à entrada desta Casa, ele queixava-se, amargo, da deslealdade dos ironistas amigos, que se apropriavam das penas zombeteiras com que fazia cócegas no nariz do próximo, e que lhe atribuíam, ainda, em paga, o manejo da urtiga, irritadora da pele.
No trabalho meticuloso em que Fabre reabilita a cigarra, malsinada por La Fontaine, intérprete secular do despeito dos gregos, demonstra esse entomologista a falsidade da tradição que atribui a este inseto, filho do sol, o defeito da imprevidência. E no restabelecimento da verdade, na reintegração dos seres na natureza e no conceito dos homens, conta que a cigarra, nos dias de verão, se aproxima de um ramo tenro, faz-lhe uma pequena cesura, e põe-se a sugar, tranqüila e honesta, a seiva deliciosa da planta. Acossados pela canícula, sem uma gota de orvalho no cálix das flores ou na taça verde das folhas, as formigas correm, de longe, ao aviso da boêmia. E assiste-se, então, a esta cena surpreendente: enquanto a cigarra canta, bebendo, saciando-se à custa da própria tenacidade, as formigas dessedentam-se no líquido que ela derrama, e, na disputa, mordem-na, maltratam-na, agridem-na, procurando afugentá-la, para se apossarem do mel que lhe sobra!
Emílio foi no seu tempo, sob esse aspecto, a cigarra deste formigueiro. Malsinado pelas formigas, que viveram da seiva que ele arrancava, cantando, ainda encontrou, na morte, como a sua irmã de Verão, a injustiça de La Fontaine!
O poeta, em Emílio de Menezes, era o imprevisto desdobramento do homem. Ele recordava, nesse particular, certos rios secundários da Amazônia, em que a superfície das águas não dá idéia do seu volume. Em frente ao meu barracão de seringueiro, no Mapuá, no ponto em que essa corrente se bifurca, apertando nas tenazes a bárbara virgindade da selva, corria a unir-se ao outro o braço mais estreito do rio. Debruçadas nas margens, as juçaras eram como braços femininos e amorosos, oferecendo aos viajantes e às águas o verde ramalhete das suas almas. Abertos em flores roxas, desciam, dia e noite, no rumo do mar, as balsas de mururé, como coroas mortuárias tecidas pela saudade da terra para o enterro do oceano. Ensombrando a correnteza, árvores de toda ordem atiravam à água, enfeitando-lhe o manto, punhados de flores, que deslizavam quietas, entre adeuses de insetos, na ignorância do seu destino... Olhando aquele rio estreito e festivo, eu me supus hóspede de um regato amável, que me mostrava, na sua quietude, nas suas balsas floridas, na frescura permanente das águas, as intimidades do seu coração. Um dia, fui sondá-lo: disfarçada por aquelas flores da superfície, rolava para o Amazonas, rápida, silente, vertiginosa, uma poderosa massa d’água que tinha, diante da minha casa, quarenta metros de profundidade!
Emílio de Menezes era um desses abismos dissimulados. Sob a camada risonha e clara da sua vida jovial, trovejava, grave, profundo, soturno, o rio da sua inspiração poética!
A figura de Emílio tem, no seu tempo, sob esse aspecto, uma feição singular. Tendo chegado tarde para participar do movimento literário iniciado por Bilac, Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, e cedo demais para aguardar em silêncio a fórmula e a companhia da geração que viesse, Emílio deliberou constituir, sozinho, o seu apostolado poético. Os muros de Jerusalém eram ressoantes de harpas amorosas quando se ouviu, fora, na solidão do Deserto, o trovão de Isaías. Isolado, sem discípulos, sem mestres, sem precursores nem seguidores, o novo profeta era o oráculo de uma poesia nova, cuja música, de sons cavos, lúgubres, intimidavam e embeveciam.
A arte de Emílio de Menezes não se parece, em verdade, com qualquer outra da sua época. Se os gigantes cantassem, cantariam com aquela sonoridade. Polifemo, chorando sangue e lágrimas pelo olho vazado, devia ter, à beira do mar, o choro das suas blasfêmias. O seu verso, largo, severo, musical, dá-nos na sua impassibilidade majestosa uma impressão de oceano rolante. Os próprios estos do seu amor são austeros, sombrios, de uma grande harmonia descompassada, como se subissem do fundo das ondas. Se Adamastor, assentando no promontório tormentoso, soprasse a sua saudade, entre os uivos das ondas, no côncavo de um búzio tempestuoso, a sua voz não seria, talvez, mais grave e mais triste. Ecoavam na sua boca, blasfemando ou gemendo, as vozes dos titães soterrados. Os seus alexandrinos tinham, na gravidade da música, rebôos de caverna:
Este leito, que é o meu, que é o teu, que é o nosso leito,
Onde este grande amor floriu, sincero e justo,
E unimos, ambos nós, o peito contra o peito,
Ambos cheios de anelo, ambos cheios de susto;
Este leito que aí está revolto assim, desfeito,
Onde humilde beijei teus pés, as mãos, o busto,
Na ausência do teu corpo a que ele estava afeito,
Mudou-se, para mim, num leito de Procusto!...

Louco e só! Desvairado!... A noite vai sem termo,
E, estendendo, lá fora, as sombras augurais,
Envolve a Natureza, e penetra o meu ermo.

E mal julgas, talvez, quando, acaso, te vais,
Quanto me punge e corta o coração enfermo
Este horrível temor de que não voltes mais!...

Neste soneto, instrumentado com a mesma harmonia larga, trovejam os mesmos ecos:
Tomba às vezes meu ser. De tropeço a tropeço,
Unidos, alma e corpo, ambos rolando vão.
É o abismo, e eu não sei si cresço ou si descreço,
À proporção do mal, do bem à proporção.

Sobe às vezes meu ser. De arremesso a arremesso,
Unidos, estro e pulso, ambos fogem ao chão,
E eu ora encaro a luz, ora à luz estremeço,
E não sei onde o mal e o bem me levarão.

Fim, qual deles será? Qual deles é começo?
Prêmio, qual deles é? Qual deles é expiação?
Por qual deles ventura ou castigo mereço?

Entre o perpétuo sim e ante o perpétuo não,
Do bem que sempre fiz, nunca busquei o preço,
Do mal que nunca fiz, sofro a condenação.

Infelizmente, essa feição artística, esse apego exagerado à música dos vocábulos, que constituía a sua virtude, o segredo do seu renome nas letras, foi, também, o veneno da sua glória. De imaginação pouco fértil nesse terreno, e de coração mal encordoado para os dedos do sofrimento, e, sobretudo, sem um patrimônio de cultura que lhe permitisse o suprimento com o recurso das adaptações inteligentes, tinha ele de apelar, necessariamente, para o artifício, para a espuma colorida, para os efeitos do vocabulário, que substituem insuficientemente a idéia. Quando o pensamento é pálido, recorre o artista à beleza da orquestração, em que consegue, geralmente, resultados maravilhosos. Este soneto, pertencente à última fase do poeta, constitui, na apoteose sonora das palavras, um desses apelos felizes:
Aureolado da opala, o topázio, a ametista,
Que o sol ocíduo põe na agonia da tarde,
O monte, que, de légua, ou de léguas, se avista,
Do amplo juso à cimeira, em pedrarias, arde.

À suntuosa mudez não há olhar que resista,
Nem ao quieto esplendor quem se não acobarde,
Um silêncio de luz lhe vai da base à crista:
É o féretro da pompa, é o túmulo do alarde.

Em tal fulgurarão, translúcido, irradia,
E essa translucidez que é apenas ilusória,
Deixa ver que há um Além, além da fantasia.

Desce lenta, entretanto, a noite merencórea...
Queda-se a Natureza, amortalhada e fria,
Na saudosa visão de um momento de glória...

Em palestra, um dia, com Edmond de Goncourt, contou Heredia, sem imediata aplicação do símbolo, um episódio que devia ter, então, alguma relação com a sua poesia decorativa. Certo milionário extravagante, espírito bizarro, dado a prazeres custosos e exóticos, ideara, certa vez, a adaptação de uma figura viva às figuras mortas do seu tapete, e comprou uma tartaruga. Ao chegar em casa notou que a carapaça do anfíbio era rude, áspera, grosseira, e mandou que a polissem. Em seguida, para que se tornasse em harmonia com a decoração suntuosa das tapeçarias, levou-a a um dourador, que a dourou, e, finalmente, a um joalheiro, que lhe incrustou no casco, com afetuosa perícia, um punhado de topázios de preço. Assim adornada, a tartaruga passeou, ainda, dois dias, como um mostruário errante, pelas alcatifas do salão; ao terceiro, porém, sucumbiu, vítima dos artifícios.
Os sonetos de Emílio de Menezes não eram evidentemente meras tartarugas poéticas, valorizadas para o palácio das letras pela faiscante pedraria da concha. Quando assim sucedia, havia uma diferença: é que a tartaruga morreu com a incrustação dos topázios, enquanto que, nos sonetos de Emílio, os topázios, que matam alguns, dão, a outros, a glória da imortalidade.
O conhecimento que possuía dos homens o meu antecessor nesta Cadeira, fê-lo amigo dos irracionais. A casa onde viveu os últimos anos, e onde morreu, na Aldeia Campista, era ressoante de guinchos, de uivos, de miados, de cacarejos, de vozes que se confundiam e subiam ao céu, como se tivesse encalhado na terra, entre árvores, a Arca de Noé. Galgos afilados, angorás voluptuosos, galinhas pintalgadas; galos de cauda em forma de trompa e crista em bico de serra, – eram, no lar, os seus amigos, o seu mundo, o seu universo. Nas exposições caninas e avícolas, era ele, sempre, um dos julgadores do concurso, com autoridade incontrastável no assunto. E tão competente era, ou parecia, na geografia física de tais províncias da Natureza, que toda a gente se lembra, ainda, daquela galinha de cabeça de peru, com que ele concorreu, há três anos, ao certame anual da Sociedade Nacional de Avicultura, nos terrenos em que florescia, há quatro lustros, a suave santidade das freiras da Ajuda.
Diante dos seus bichanos e dos seus “loulous”, Emílio tinha horror à humanidade. Para ele, como para Henry Rabusson, o homem tem necessidade da companhia do cão sempre que pretenda elevar-se na ordem dos sentimentos. Ao contrário de Michelet, que os considerava candidatos à humanidade, ele achava que o homem é que era, ainda, um simples candidato aos sentimentos bons, puros, altos, generosos, que a sua perspicácia descobria nos cães. Como Schopenhauer, Emílio acreditava, ainda, que o homem só teve a noção da sinceridade, classificando-a, como virtude, no dia em que domesticou o cachorro. E nesta simpatia pela animalidade, criava gatos soberbos, galinhas magníficas, perus explosivos e, sobretudo, cachorrões trovejantes, honestos, leais, dedicados, que mandava negociar na cidade, a duzentos mil réis cada um...
São estes os vultos gloriosos cuja herança acadêmica me foi destinada nesta Casa: um, devoto das rosas, que identificava pelo perfume; outro, amigo dos cães, que distinguia pelo ladrido. Pondo Emílio de Menezes os cães acima dos homens, o seu espírito se revoltaria, talvez, no mundo em que repousa, se eu evocasse, a propósito da sua memória, as outras figuras da espécie. Parece-me preferível, pois, nesta despedida, recordar, em uma imagem final, uma sabida anedota do seu agrado.
No cerco de Paris, em 1870, a fome atormentava a população. Os cavalos foram comidos, um a um. Os gatos desapareceram dos telhados, os cães desertaram as ruas, e os ratos, mesmo, foram caçados nos esgotos. Por esse tempo, Charles Monselet, que então escrevia no Figaro, correu às trincheiras, incorporando-se, com o seu “loulou”, o Azor, em um batalhão de voluntários. Durante vinte dias suportou Monselet heroicamente o regímen do batalhão, comendo ratos e gatos, cujos ossos o cão, depois, triturava nos dentes.
Um dia, faltaram os felinos e os roedores, e o jornalista resolveu um sacrifício pérfido: comer o cachorro. À noite, em uma casa vizinha às trincheiras, foi o cão abatido, esfolado, posto a ferver com especiarias estimulantes, e transformado, por milagre de caçarola, no mais saboroso dos guisados militares. Terminado o jantar, Monselet reuniu em um prato os ossos da vítima e gemeu, enxugando os olhos:
– Pobre Azor! Que jantar perdeste hoje!...
É esta, mais ou menos, agora, a exclamação que me cabe:
– Ah, Emílio! Que pilhérias me darias tu, neste momento, se estivesses presente a esta solenidade!