|
Introdução
Foi Coelho Neto, grande amigo de Euclides, que o induziu a editar seus livros na Editôra Lello, de Portugal. O êxito editorial do autor de Livro de Prata (pelo assunto e pelo estilo) o animou a aconselhar seu colega da Academia à prestigiosa casa do Pôrto. A morte inesperada de Euclides, porém, as naturais dificuldades para os necessários contactos com editôres e a falta de afinidade dos portuguêses com a temática euclidiana fizeram com que as seguintes edições de Contrastes e Confrontos e À Margem da História se epaçassem cada vez mais e não tivessem a indispensável assistência direta do Autor, ou de revisores afetios à matéria. Margem da História (obra póstuma que só saiu um mês após a morte do escritor) vem em sua 1ª edição - provàvelmente pela falta de uma revisão final de Euclides - eivada de erros e descuidos. Graças ao zêlo de seus editôres, as ediçòes seguintes se apresentam mais corretas e melhor revistas. Sendo crescente entre nós o interêsse pela obra euclidiana e dada a importância dos livros para a perfeita compreensão da problemática do Autor, impunha-se fôssem eles editados entre nós, na nossa ortografia e sob nosso cuidados revisórios. Graças aos entendimentos da Editôra Lello Brasileira, de São Paulo, conseguindo autorização da Editôra Lello, do Pôrto, e com o estabelecimento de textos feito pelo Sr. Dermal Monfré, temos agora (como iniciativa da editôra nacional em comemoração ao Ano Euclidiano) os dois livros editados no Brasil. À Margem da História compõe-se de quatro partes: Na Amazônia, Terra Sem História (7 capítulos, sôbre essa região), Vários Estudos (3 capítulos, assuntos americanos), Da Independência à República (ensaio histórico) e Estrêlas Indecifráveis (crônica).
O livro apresenta, bem nítidas, quatro constantes da personalidade cultural de Euclides: o cultor da língua e verdadeiro esteta da linguagem, o ensaísta e o humanista brasileiro. Não há preciosismo no falar euclidiano; há, sim, o rigorismo da palavra exata. Seu vocabulário riquíssimo, técnico e profissional quando necessário, era-lhe o instrumento próprio para captar tôdas as sutilezas da realidade e expor o logicismo de seu raciocínio de investigador e a lucidez do intérprete. Nas palavras densas, carregadas de emoções e evocações, dispostas numa estruturação sintática de ritmo veemente, que se torna frêmito de vida e poesia, temos a própria autenticidade de Euclides, numa linguagem que é bem tropicalmente brasileira, no transbordamento fenomenológico de formas, sons, calor e luz. Se n’Os Sertões êle foi mais improvisado e por isso mais grandiloqüente e espetacular, agora ei-lo mais equilíbrio e maturidade. O capítulo Judas Ahsverus (que nasceu inteiriço como um bloco de beleza) continua sendo uma das melhores páginas da língua portuguêsa. O espírito científico de Euclides, sempre estudando e sumariando os assuntos (formado na juventude conforme o espírito da época), dado a hipóteses e prefigurações muitas vêzes discutíveis, extravasa-se na insopitável vocação ao ensaísmo, exigindo-lhe conhecimentos e pesquisas, para que se torne mais lúcido, mais penetrante, melhor intérprete. Por isso achamos que há necessidade de uma iniciação cultural para se sentir e compreender Euclides. Não estranhamos ser êle um escritor pouco popular. Sua irrefreável tendência à interpretação fisiológica dos fenômenos naturais mostra-se através de uma vibração romântica e idealística, fazendo surgir, dos algarismos e teorias, sua figura inigualável de artista. Euclides é inesgotável. Por mais que se queira defini-lo e caracterizá-lo, ainda se descobrem novas veredas e magníficas perspectivas que escaparam à delimitação...
Seu tema central é a pátria e a gente brasileira. N’Os Sertões o objetivo último é o homem; n"Amazonia, o tema principal é a terra. Seu nacionalismo mais se prende à preocupação do bem comum e da denúncia das estruturas desequilibradas de nossa sociedade. Já de algum tempo era sua intenção escrever um "segundo livro vingador". Deveria referir-se à Amazônia, acusando os descasos pela terra e o desprêzo pelo homem.
Deveria chamar-se Paraíso Perdido. Não o completou, porém, e alguns de seus capítulos constituem a Terra Sem História, que abre êste volume. São, no entender de alguns euclidianos, as mais expressivas e belas páginas de Euclides. Quando, em 1904, escreveu a José Veríssimo sôbre sua ida ao Acre (como Chefe da Comissão de Reconhecimento das Nascentes do Rio Purus) confessa o intento: "Aquelas paragens, hoje, depois dos últimos movimentos diplomáticos, estão como o Amazonas antes de Tavares Bastos; se eu não tenho a visão admirável dêste, tenho o seu mesmo anelo de revelar os prodígios da nossa terra". Seu desejo era mostrar os aspectos físicos e as riquezas essenciais da exuberante região.
"Além disso, se as nações estrangeiras mandam cientistas ao Brasil, que absurdo haverá no encarregar-se de idêntico objetivo um brasileiro?" O grande rio teve o intérprete à altura. Conhecerá melhor a Amazônia aquêle que ler as páginas de Terra Sem História. Não é sòmente a geografia descritiva que o empolga; são suas transfigurações no tempo. O mesmo crítico da caatinga, d’Os Sertões, é aqui o arrebatado revelador do sistema hidrográfico da (ainda hoje) desordenada região. E se o sertanejo é antes de tudo um forte, o seringueiro, é um tipo de lutador excepcional. Devido, porém, ao egoísmo desenfreado dos patrões opulentos, o homem ali "trabalha para escravizar-se". Se n’Os Sertões a denúncia fica mais como um alerta, aqui Euclides é mais objetivo e recomenda leis trabalhistas (isso em 1906...) para que "salvemos aquela sociedade obscura e abandonada". Enquanto Contrastes e Confrontos está recheado de estudos e ensaios que são o desdobramento ou a complementação d’Os Sertões, êste outro em nada a êles se assemelha, a não ser pelo mesmo tema da integração nacional - através da penetração na Amazônia - e o mesmo desvêlo pelo sofrido homem de nossa pátria, o que faz de Euclides da Cunha um dos primeiros e mais ardorosos cultores do humanismo brasileiro. Continuam aqui suas preocupações e seus interêsses pelos problemas americanos, principalmente os referentes à América do Sul. Isso em 1904. Se os tivéssemos acompanhado e estudado com igual dedicação e cuidado, hoje teríamos uma alinaça latino-americana melhor e mais eficientemente estruturada e, conseqüentemente, uma vida econômica e social mais condinzente com nossas possibilidades e riquezas. O historiador Euclides tem, no esbôço Da Independência à República, um ensaio cuja leitura deve ser obrigatória mesmo para os especialistas no assunto. É lúcido e original na interpretação do evoluir de nosso processo histórico-social. O livro termina com um capítulo que parece chamar a atenção para os céus indecifráveis, assunto que hoje seria o ponto alto das pesquisas científicas, nas penetrações espaciais. É poesia, ciência e confissão do agnóstico diante do infinito desconhecido e sua ânsia de decifrá-lo...
Os euclidianos brasileiros, exultantes, muito têm a agradecer à Lello Brasileira S.A., pelo retôrno dêstes dois filhos pródigos... Oswaldo Galotti
Grêmio Euclides da Cunha, de São José do Rio Pardo |